9:18Os gritos da barbárie do feminicídio

O que se pode fazer senão gritar? Neste domingo, às dez da amanhã, em todo Brasil mais um vez seres humanos se juntarão para isso. Um grito pelo que há de mais precioso, um grito que até agora parece não ser ouvido, ao contrário, é até debochado por eles, os irracionais, assassinos, estupradores, dementes – e também por quem deveria lutar, no campo oficial dos poderes públicos, para combater. “Mulheres Vivas” não é um movimento, é um apelo à sanidade num Brasil tão machucado pela imensa desigualdade social, pela soberba dos poderosos, pelo aniquilamento de tentativas de reformas, pela desfaçatez de quem só olha o próprio umbigo pois está no lado de cima da tal pirâmide. Comparar os animais os que atacam as vítimas, aquelas para quem se afirmou que nelas não se bate nem com uma flor, é não conhecer os bichos que dizem ser irracionais. O grito em uníssono de todos que pedirão o fim da barbárie, a prisão dos que mataram a tiros, a faca, a porrete, a murros, um ser indefeso, mais fraco fisicamente, mas mais forte de alma, de compreensão, de inteligência, esse grito foi o que se ouviu, mesmo sem som, vendo o atropelamento brutal da menina Tainara Souza Santos, arrastada que foi pelo maluco enciumado por nada, que se achou no direito de acabar com a vida de alguém que não queria nada com ele. Enganchada perto de uma roda dianteira do carro ela foi arrastada, esfolada viva no asfalto – e todo o país gritou junto, sentindo mais do que aquela dor, sentindo pelos filhos dela, pelos pais, pelos amigos, chocados com tal barbárie. Ela continua no hospital, em estado grave. Perdeu as duas pernas e, talvez, a chama da vida. Ele foi preso, mas será que sente alguma coisa? Desde que as manifestações e algumas ações contra o feminicídio cresceram, também aumentou o número de ataques, de mortes, como as que acabaram com a vida da estudante Catarina Karsten, morta enquanto caminhava numa praia de Florianópolis, e as vítimas do ataque a tiros ao Cefet Maracanã, no Rio de Janeiro: a diretora Alliane Pedrotti e a psicóloga Layse Costa Pinheiro. Quatro exemplos recentes num mar de sangue. No ano passado 1.492 mulheres foram mortas no país. Oito em cada dez assassinatos foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros. As tentativas de feminicídio foram 3.870. As ameaças registradas chegaram a 750 mil. Os números deste ano devem ser maiores. Os  gritos de desespero estão no ar permanentemente em todo este imenso Brasil. Os de quem tenta reverter a situação soam juntos. É preciso. Sempre. O Largo da Ordem, em Curitiba, tem o nome perfeito para se fazer isso.

 

 

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