14:20Pescoço cult

por Carlos Castelo

Há peças de roupa que nasceram para a glória. O smoking, por exemplo, entra numa sala e todos suspiram. Já a gola olímpica (ou gola rolê), adentra e todo mundo se pergunta se o sujeito está prestes a ler um capítulo de Sartre em voz alta.

A gola olímpica é o suéter do existencialismo. É o uniforme não-oficial de quem quer parecer profundo, mesmo quando está apenas esperando o ônibus. Ninguém usa uma gola olímpica impunemente; ela vem acompanhada de um pacote emocional: um leve desprezo pela humanidade e a convicção de que o mundo não o leva em conta. É a gola dos incompreendidos, e dos entediados que gostariam de ser entendidos.

Seu nome já é uma ironia em si: olímpica. Evoca deuses gregos, feitos heroicos, vitórias em estádios de mármore. Mas, na prática, o que vemos são mortais suando como Prometeus de shopping center, com o pescoço trancado num rolo de tecido e a dignidade se esvaindo gota a gota. Nenhuma vitória. Nenhum mármore. Apenas incômodo.

Quem inventou a gola olímpica, certamente acreditava que o calor humano é uma ameaça. Porque não há como usar uma dessas sem sentir-se estrangulado. Ela é uma carícia hostil: abraça o pescoço e sussurra “nunca mais você vai respirar direito”. Ainda assim, há quem chame isso de elegância minimalista.

O requinte, como sabemos, é o último refúgio do desconforto. E o que há de mais engraçado na gola olímpica é que ela carrega a ilusão de intelectualidade instantânea. Você coloca uma e, pronto, parece ter opiniões sobre Proust e a gramática do idioma húngaro. É o equivalente têxtil de citar Nietzsche no primeiro encontro.

E há também a questão do timing. As pessoas insistem em usá-la quando o termômetro nem chegou aos 18 graus. Querem sentir o frio existencial de Paris, mesmo morando em Belém. Vão à padaria de gola olímpica, como se fossem personagens de um romance de Sartre. E vamos dizer o quê? É uma questão de livre arbítrio. Só espero que o padeiro aprecie literatura deprimente.

No fundo, há algo de comovente nisso tudo. A gola olímpica é uma tentativa patética, porém poética, de controlar o mundo. De dizer: “meu pescoço está seguro, logo, estou preparado para enfrentar a vida”. Claro que, minutos depois, o indivíduo estará suado, puxando a gola e amaldiçoando a própria vaidade. Mas, por um instante, ele acreditou em tudo aquilo.

E talvez seja isso que nos une: nós, os trágicos usuários de gola olímpica. O desejo de parecer um pouco mais ousados do que realmente somos. De esconder a vulnerabilidade do pescoço e da alma. No fim, o frio passa. Mas a vergonha alheia, infelizmente, permanece no tempo.

(Publicado no Estadão)

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