10:03Meu companheiro peludo

por Carlos Castelo

A maioria das pessoas hoje tem um pet. Um bichinho que protege, que alimenta, que abriga. Eu, como moro num apartamento tão pequeno que à entrada da quarta pessoa caem as máscaras de oxigênio, não consigo ter um animalzinho assim. Por isso decidi adotar um bigode como pet: o Musta.

Passei então a abrigá-lo, protegê-lo, alimentá-lo, com cremes e bálsamos. E podá-lo, como se faz nos pet shops com o pelo dos cães, cortando-os e lavando-os com frequência. E assim vamos, meu bigode e eu passeando por aí.

No início, as pessoas estranharam minha dedicação. Quando cancelo compromissos porque preciso dar banho no bigode, recebo olhares suspeitos. Quando explico que não posso viajar porque não tem quem cuide dele, alguns chegam a perguntar se não tenho um vizinho de confiança.

Meu bigode, no entanto, é bem comportado. Nunca faz xixi no tapete da sala nem mastiga o controle remoto. É verdade que às vezes ele fica rebelde durante o café da manhã, tentando mergulhar no leite, mas são travessuras normais da idade.

Criei uma rotina para nós dois. De manhã, escovo seus pelos cuidadosamente. À tarde, aplicamos protetor solar (ele tem a pelagem sensível). À noite, uma massagem relaxante com óleos de cedro. Aos sábados, vamos ao pet shop especializado, onde a Dona Neuza faz a tosa e ainda coloca uma bandaninha. O Musta fica lindo.

O problema começou quando quis registrá-lo no veterinário do bairro. A moça da recepção insistiu em perguntar a raça. Expliquei que era um bigode sem raça definida, provavelmente um SRD mesmo, mas ela não conseguia encontrar no sistema. Acabei inventando que era um Schnauzer.

Minha mãe acha que exagero. “Isso é uma loucura”, diz ela. Mas quando vê como o bigode fica sedoso depois dos meus cuidados, admite que o resultado é bonito. Meu pai, mais prático, só quer saber se posso deduzir os gastos com pet no Imposto de Renda.

O pior são os vizinhos do prédio. Sempre que nos encontramos no elevador, perguntam insistentemente sobre o bigode. Respondo que ele está ótimo, crescendo saudável, e agradeço o interesse. Eles ficam me olhando, em silêncio.

Ontem descobri que minha namorada está com ciúmes do bigode. Disse que dou mais atenção a ele do que a ela. Tentei explicar que são carinhos diferentes, mas ela não entendeu. E fez um ultimato: ou ela ou o bigode.

Não resta mais dúvida, meu relacionamento com o pet está ficando cada vez mais complicado. E nem é porque sou mulher e ainda não tinha adotado um bigode. É porque ele está exigindo hidratação com óleo de jojoba e barbearia hipster.

(Publicado no Estadão)

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