
Texto e foto de Ricardo Marajó
Em uma manhã fria, o ar cortante de Curitiba ainda carregava o sussurro gelado da madrugada de geada.
O céu, de um cinza pálido, parecia envolver a cidade com uma manta de silêncio, enquanto o sol tímido lutava para aquecer os jardins e parques que, outrora, foram palco de tantas aventuras.
Três amigos — Ana, Lucas e Pedro — se reencontraram ali, sentados sobre um tapete no Jardim Botânico, com as costas voltadas para o mundo e os olhos fixos na majestosa estufa de ferro e vidro, cujas cúpulas arredondadas brilhavam como joias cristalinas no horizonte.
Haviam se passado anos desde a última vez em que estiveram juntos.
Ana, agora vivendo em Londrina; Lucas, em Foz do Iguaçu; e Pedro, em Maringá, cada um traçando seus caminhos pelo Paraná, mas carregando no coração as lembranças de uma infância marcada pelas brincadeiras entre as alamedas arborizadas do Jardim Botânico e pelos passeios nos parques Tanguá e Barigui.
Momentos que pareciam durar eternidades — e, de certo modo, ainda duravam, guardados na memória de cada um deles.
O reencontro, há tanto desejado e adiado, nasceu de um convite impulsivo de Ana.
E, de repente, ali estavam eles: reunidos como se o tempo não tivesse passado.
O frio mordia, mas o café quente em suas mãos, servido em canecas térmicas, aquecia mais do que apenas os dedos.
O vapor subia em espirais, misturando-se ao ar gelado, enquanto Ana sorria ao lembrar do dia em que os três escalaram uma árvore no parque, apenas para serem gentilmente repreendidos por um guarda municipal.
Lucas ria baixinho, com os olhos fixos na estufa, recordando as tardes em que inventavam histórias sobre os exotismos que poderiam estar escondidos sob aquelas cúpulas — orquídeas mágicas, pássaros que falavam, talvez até um portal para outro mundo.
Pedro, com o capuz da jaqueta levantado, completava as memórias ao descrever como costumavam correr pelos gramados, fingindo ser exploradores em busca de tesouros perdidos nas raízes das araucárias.
A estufa, símbolo imponente do Jardim Botânico, parecia observar o trio com a mesma serenidade de outrora.
Seus arcos de ferro e painéis de vidro, envoltos pela moldura das árvores que testemunharam as vivências dos três amigos há anos, formavam o cenário perfeito para aquele momento.
O silêncio entre eles não era de desconforto, mas de cumplicidade, as palavras eram desnecessárias para quem compartilhava tantas histórias gravadas no solo curitibano.
O café, ainda fumegante, era mais do que uma bebida: era um elo, um calor que aquecia não apenas os corpos, mas também as almas que, por tanto tempo, estiveram distantes.
A geada da manhã, que cobria as folhas e os gramados com um brilho prateado, lembrava-os do quanto a cidade podia ser dura, mas também encantadora.
Era como se Curitiba, com seu clima rigoroso, os chamasse de volta para um abraço nostálgico.
Enquanto o sol começava a derreter a geada, os três amigos decidiram caminhar pelas alamedas, revivendo cada passo da infância, as risadas ecoando entre as árvores, o café ainda em mãos, e a estufa, sempre ali, novamente testemunhando em silêncio o reencontro.
Um reencontro que firmava, sem necessidade de promessas, a certeza de que o que realmente importa não são os caminhos que cada um escolhe seguir, mas o desejo de que a chama da amizade nunca se apague.