6:47LEROS

de Carlos Castelo

§ No Brasil, a modernidade não se mede mais em avanços tecnológicos, mas em número de tiros. O carioca médio, por exemplo, aprendeu a conviver com cadáveres como quem convive com boletos. A desumanização virou política pública com metas e indicadores de performance: contam-se corpos como quem bate metas. No país em que chacina só choca quando passa de dois dígitos, a barbárie perdeu o pudor e ganhou metodologia.

O maior milagre da direita cristã, sem dúvida, ainda é transformar cadáver em voto. Um milagre eleitoral de ressurreição simbólica, em que cada morte legitima o discurso da força.

Quando o governador do Rio diz “megaoperação”, o tradutor simultâneo deveria dizer “campanha”. Não contra o crime, mas contra a dúvida de saber em quem votar. Entre helicópteros, drones e hashtags, o futuro se ajoelha diante do mesmo altar: o da violência sacralizada, em nome da ordem, da família e de Deus – os três pilares da tragédia nacional

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.