6:47Continuar ou silenciar – eis a questão

por Célio Heitor Guimarães

“Prezado Célio, sou um dos incontáveis leitores da boa prosa que você nos traz. Continue a escrever no ritmo que desejar, na forma que lhe aprouver e de temas que convém à sua alma. O texto representa a ti e sobretudo a nós.”

Esta foi uma das primeiras mensagens que recebi quando anunciei, nas semanas passadas, a dúvida se continuaria ou não a escrever as minhas mal traçadas linhas. O remetente é anônimo, limita-se a assinar-se como “Realmente” – o que me possibilita, até, supor ter sido o comandante deste blog, que já me enviou palavras semelhantes, em ocasiões anteriores. Só que o nosso Zé Beto não precisaria de pseudônimo, posto que age às claras e continuará sempre assim.

O motivo da minha dúvida é conhecido do leitor – a inesperada perda da minha companheira de vida. Mais do que isso: guia, inspiradora e amiga de todos os momentos; sem ela, sinto-me desorientado, sem ponto de apoio.

Gosto de escrever, as letrinhas sempre foram uma paixão, sinto-me bem entre elas. No entanto, acho que já escrevi tudo o que precisava ser escrito, Continuar seria repetir-me, sem conseguir mudar as coisas que nos cercam, quanto mais o mundo em que vivemos. Aí, inevitavelmente, vem-me à mente o saudoso Rubem Alves. Para ele, a vida deveria ser como uma sonata de Mozart, que não dura mais do que vinte minutos. Morre cedo. Depois dela, vem o silêncio. E o silêncio se faz necessário porque tudo o que havia para ser dito havia sido dito.

Mas Rubem também dizia que não havia nada mais prazeroso do que poder escrever para os outros, dar opinião, levantar questões, discutir temas de interesse geral, mesmo que se desconheça o interlocutor e a convicção dele.

Outra opinião foi dada por Sérgio de Jesus Vieira, que também me pede para continuar escrevendo: “Poderia enumerar várias razões para isso, mas vou procurar reduzir em uma frase: ‘Porque seus escritos são maravilhosos e nos fazem muito bem’.”

Aí recebo um abraço carinhoso de Ticiana Vasconcelos Silva, presença constante neste blog com escritos de profunda beleza e significado:

“Querido Célio. Em primeiro lugar, sinto muito. Sinto muito mesmo. Aqui ficamos como um ato de coragem e desprendimento que tanto passamos ao longo da vida, principalmente nessas horas mais difíceis. Saiba que o carinho que temos por você, não só pelo o que escreve, mas muito mais por quem você é, é o que eu posso lhe oferecer. Sinta-se abraçado num longo ato de consolo, acolhendo a sua alma para que chegue até onde sua mulher estiver.” 

Mensagens como estas aquietam o coração da gente, amenizam a saudade e descortinam o horizonte. Relevando o exagero e a benevolência das manifestações, acho que vou aceitar a sugestão do primeiro manifestante, o incógnito “Realmente”. Com a aquiescência do meu editor e mestre Zé Beto, aqui comparecerei sempre que a inspiração surgir e um tema se fizer presente. Ou, então, até o dia em que a minha Cleonice vier me buscar. De acordo, Fernandinha querida?

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One thought on “Continuar ou silenciar – eis a questão

  1. julio zaruch

    Prezado Célio. Que notícia triste. Meus sentimentos e solidariedade. Mas continue, sim, a escrever seus textos lúcidos e didáticos. Grande abraço, Júlio Zaruch

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