Não mordi a hóstia consagrada. Um padre de batina preta, cinturada, não disse, mas eu soube no pátio do colégio que, se fizesse isso, olha o sangue escorrendo! Confesso que, na véspera da primeira comunhão, confessei uma parte dos meus pecados. Como eu ia dizer, através daquela tela, vendo o perfil do escutador juramentado, que sentia atração pela vizinha gorda, de bunda enorme, eu com 7 anos de idade? Fellini depois me contou que não havia pecado. Mas ao receber a hóstia e voltar para meu lugar na igreja, ela colou no céu da boca e não havia jeito de sair. Não podia enfiar o dedo ali no meio daquele povo. E se a ferisse e… o sangue… Quando ouvi “sangue de Cristo” pronunciado lá no altar, as perninhas finas bambearam. Fechei os olhos e comecei a pedir para todos os santos presentes que ela derretesse ou desgrudasse. Derreteu. Engoli. Vou para o céu. Sessenta e três anos depois vem a foto pelo computador. Todos os alunos que passaram pela mesma experiência, posados. O padre de um lado. A freira do outro – mas não era a que me apaixonei quando estava no pré-primário. Tentei me achar naquele mundaréu de gente. Arrisquei ser um deles. Porque parece que este imortalizou um sorriso, cínico.