6:25O veleiro vai e a vida continua

por Célio Heitor Guimarães

Tenho recebido muitas mensagens em razão do falecimento de minha mulher – pelo e-mail, pelo facebook, pelo telefone e pessoalmente. Muito mais do que eu imaginava receber e muito mais do que eu talvez mereça. Mas, confesso, que as manifestações têm me feito bem. Nessa hora, mesmo que não se seja religioso ou não se dedique às coisas espirituais, você sente. Algo estranho acontece e, ainda que não se saiba bem o que é e de onde vem, ajuda profundamente. Uma palavra, um gesto, tem enorme significado. É energia positiva.

Sinceramente, não pretendia voltar ao assunto. O falecimento de minha mulher é um caso pessoal, com o qual o leitor tem pouco a ver. Mas não posso deixar de agradecer àqueles que tem se manifestado. Registrar e agradecer é o que eu posso fazer nesse momento de dor. Talvez tenham também algum proveito para quem se encontre em situação semelhante.

Um dos primeiros a manifestar-se foi Edgar Guimarães, advogado, mestre do Direito, ex-servidor público e bom amigo, com laços de parentesco. Através de meu filho, Edgar enviou-me um texto, do qual ele confessa gostar muito. Gostei também:

“Quando observamos da praia um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, vemos que, impulsionado pelo vento, ele vai ganhando o mar azul e nos parecendo cada vez menor.

“Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram. Quem observa, certamente exclama: ‘Já se foi!’

“Terá sumido mesmo? Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. O barco continua do mesmo tamanho.

“E, talvez, no exato instante em que alguém diz: ‘Já se foi’, haverá outras vozes, do outro lado, a afirmar: ‘Lá vem o veleiro!’.

“Assim é a morte. Quem está morrendo é como o veleiro partindo das praias deste mundo material. Mas, do lado de lá, a pessoa é vista de outro ângulo, é vista chegando, e é recebida com alegria. Do lado de cá, lágrimas caem ao vermos sumir na linha que separa o visível do invisível, o amor que tanto nos foi caro. ‘Já se foi!’ Mas, ao mesmo tempo, do outro lado, alguém dirá: ‘Está chegando’. E lá é para sempre!

“A pessoa continua a mesma. Nada se perde, a não ser o corpo físico, do qual não mais precisa. Ela chegou ao destino, levando consigo as aquisições feitas durante esta vida.

“No Prefácio da Missa dos finados, afirma-se que ‘a vida não é tirada, mas transformada. E, desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível’.

“Assim, um dia, todos nós partiremos, como seres imortais que somos, ao encontro d’Aquele que nos criou.”

P.S. – Se vou continuar escrevendo, ainda não sei. Zé Beto, meu editor e amigo, garante a necessidade de prosseguir, “como terapia, que ilumina a mente”. E anexa uma reflexão feita por um amigo do Narcótico Anônimo, que se encaixa em qualquer situação de desânimo e dor. Ei-la:

“Existem momentos em que perdemos a esperança, sentimo-nos impotentes frente a uma situação que independe da nossa vontade. A esperança de que há um dia melhor deve estar muito viva em você, porque a vida é para ser sentida e, o que parece incompreensível, poderá fazer sentido quando você mudar a forma de encarar esses momentos. O dom da vida nos foi presenteado, cabe a nós fazer desse presente a melhor opção das nossas vidas. A vida é para ser sentida.” 

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4 thoughts on “O veleiro vai e a vida continua

  1. Realmente

    Prezado Célio, sou um dos incontáveis leitores da boa prosa que você nos traz.
    Continue a escrever no ritmo que desejar, na forma que lhe aprouver e de temas que convém à sua alma.
    O texto representa a ti e sobretudo a nós.

  2. Sérgio de Jesus Vieira

    Prezado Dr. Célio.
    Não posso dizer que sei o que o senhor está passando, mas imagino.
    Me atrevo a lhe fazer um pedido: Continue escrevendo. Poderia enumerar várias razões para isso, mas vou procurar reduzir em uma frase: “Porque seus escritos são maravilhosos e nos fazem muito bem.”
    Aproveito o ensejo para enviar um fraternal abraço ao Dr. Edgar Guimarães, com quem tive o prazer de trabalhar por vários anos. Companheiro de trabalho, estimado professor e amigo fraterno.
    Um grande abraço ao Dr. Célio e ao Dr. Edgar.

  3. Ticiana Vasconcelos Silva

    Querido Célio. Em primeiro lugar, sinto muito. Sinto muito mesmo. Aqui ficamos como um ato de coragem e desprendimento que tanto passamos ao longo da vida, principalmente nessas horas mais difíceis. Saiba que o carinho que temos por você, não só pelo o que escreve, mas muito mais por quem você é, é o que eu posso lhe oferecer. Sinta-se abraçado num longo ato de consolo, acolhendo a sua alma para que chegue até onde sua mulher estiver. Ela é presente. E que fiquem os momentos juntos de cumplicidade e felicidade. Que a memória dela seja sempre lembrada com amor e alegria.
    Um forte abraço e obrigada por sempre nos presentear com suas palavras lúcidas

  4. Célio+Heitor+Guimarães

    Obrigado Ticiana, obrigado Sérgio, obrigado “Realmente”. São manifestações como estas que nos empurram para frente. Rubem Alves dizia que “diante de um amigo, sabemos que não estamos sós. E alegria maior não pode existir”. Que Deus os abençoe pelo carinho.

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