9:41Rebatendo o artigo “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo”

Segue o artigo de Leandro Francisco de Paula, doutor em História pela Universidade Federal do Paraná, onde ele rebate o artigo “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo”, do antropólogo Antonio Risério, publicado na FSP e que pode ser lido no seguinte link: https://outline.com/67q8rL

O famigerado artigo de Risério recebe o seguinte resumo:

RESUMO] Ataques de negros contra asiáticos, brancos e judeus invalidam a tese de que não existe racismo negro em razão da opressão a que estão submetidos. Sob a capa do discurso antirracista, esquerda e movimento negro reproduzem projeto supremacista, tornando o neorracismo identitário mais norma que exceção.

Depois, o autor faz a seguinte introdução:

Todo o mundo sabe que existe racismo branco antipreto. Quanto ao racismo preto antibranco, quase ninguém quer saber. Porém, quem quer que observe a cena racial do mundo vê que o racismo negro é um fato.

Portanto, Risério acredita em racismo contra brancos porque, segundo ele:Ninguém precisa ter poder para ser racista, e pretos já contam, sim, com instrumentos de poder para institucionalizar o seu racismo.Portanto, Risério acredita em racismo contra brancos porque, segundo ele:Ninguém precisa ter poder para ser racista, e pretos já contam, sim, com instrumentos de poder para institucionalizar o seu racismo.

Aí é que está o grande erro do antropólogo, acreditar que ninguém precisa ter poder para ser racista.

Em minha tese de doutorado terminada ano passado, intitulada “Milícias Negras nas Minas Setecentistas: gênese e institucionalização (1695–1802)”, demonstrei como africanos e afrodescendentes livres e libertos participavam de corporações militares em todo o Mundo Atlântico envolvidos por grupos de pressão que reivindicavam direitos antes negados para eles. Não era uma tarefa fácil. Esses indivíduos passavam por lentas mudanças de status sociais adquiridas de maneira árdua e de forma processual e geracional. Isso aconteceu no âmago de sociedades escravistas que acreditavam na impureza do sangue negro. Naquele momento, africanos e afrodescendentes eram outsiders, enquanto brancos continuavam estabelecidos e perpetuavam sua dominação colonial. Porém, ainda no século XVIII é precipitado se falar em racismo, pois o discurso era muito diferente daquele que se implementou a partir de meados do século XIX. Havia dominação colonial, questões religiosas e outros fatores que impediam negros de melhorar tranquilamente seus status sociais sem entraves. Somente após mudanças mais profundas na sociedade é que se iniciou um discurso efetivamente racista.

O que mudou nas sociedades que permitiu a implementação do racismo com seus discursos?

No século XIX, o mundo passou a se industrializar e aos poucos as sociedades de tipo antigo, ou oligárquico, foram dando espaço para aquelas de tipo democrático-representativo. A historiografia cansou de demonstrar como havia uma pressão mundial para que a escravidão tivesse fim em todos os continentes, pois o ideal do liberalismo era criar uma intensa massa consumidora e aumentar cada vez mais sua produção, o que ia contra o escravismo. Em longos processos sociais, a escravização de negros e o tráfico foram dando lugar ao trabalho assalariado. Portanto, o mundo industrializado não condizia com monarquias de poder absoluto, etnias escravizadas e outros elementos que eram considerados ultrapassados. Esse processo conduzido pelo liberalismo político e econômico não ocorreu sem grandes embates sociais de grupos de pressão. Houve revoltas, guerras (como a Civil Americana) e revoluções. Por um lado, o processo de industrialização queria passar um rolo compressor por tudo isso e iniciar novas formas de exploração que determinassem aumentos da produção e no consumo. Porém, o que havia era muita resistência das elites agrárias.

E o racismo?

Africanos e afrodescendentes livres e libertos passaram a melhorar seus status sociais na nova realidade. Agora, ocuparam espaços que antes não podiam ocupar. Nesse conflito entre Estabelecidos x Outsiders, os brancos, pertencentes às elites dominadoras, procuraram defender suas posições com a criação de discursos e com práticas que buscavam atacar os outsiders (africanos e afrodescendentes) que ousassem disputar espaços e símbolos de poder. Assim, os brancos poderiam continuar usufruindo livremente de suas regalias e de seu conforto dentro de posições hierárquicas sem precisar de muito esforço para disputar com os negros dentro dessas arenas de batalha social.

O que houve a partir de então foi a criação desses novos mecanismos discriminatórios que atacavam os outsiders de várias maneiras. Esses grupos de estabelecidos expandiram suas influências em todos os campos sociais, como o político, o econômico e até na própria ciência, com a biologia e a antropologia, por exemplo, criando o racialismo, ou seja, o racismo científico que buscava demonstrar a inferioridade dos povos de origem africana e asiática em comparação com a população europeia. Todo o tipo de falseamentos científico ocorriam simplesmente para se tentar defender essa tese de superioridade dos brancos (estabelecidos) contra os outsiders. O que se seguiu foi uma série de novas contribuições por parte desses indivíduos dentro dessa visão supremacista. O impacto foi muito grande no mundo todo e, como se sabe, é a semente do que depois se transformou no movimento nazista.

Outro fenômeno derivado de todo esse processo foi a questão do branqueamento social. Houve uma longa construção de discursos no mundo que colocavam o branco e o claro como signos de beleza e até pureza. Por isso, incutiu-se nas sociedades americanas incentivos à mestiçagem. Assim, dentro desse discurso, quanto “menos negro”, melhor. Dentro da nova hierarquia da cor, brancos estariam no topo da pirâmide e os mestiços logo abaixo, acima daqueles negros que preferissem se manter de pele escura e resistindo ao branqueamento.

Na arena de batalha social, os costumes e as crenças de africanos e afrodescendentes também deveriam ser atacados. Muitas vezes, o próprio Estado acabava por dar voz a esses movimentos supremacistas e proibiam elementos culturais de origem negra, como, por exemplo, no Brasil, a capoeira. Religiões de origem africana passaram também a sofrer com proibições e com ataques dos mais variados campos sociais.

Assim, tudo o que fazia parte do universo negro passou a sofrer ataques de todos os tipos.

O objetivo desses grupos estabelecidos era impedir que os negros disputassem os mesmos espaços e usufruíssem dos mesmos direitos que os brancos. Esse processo de luta entre estabelecidos e outsiders se iniciou no século XIX e se perpetua até hoje, em pleno século XXI.

O racismo, portanto, foi construído dentro de um longo processo social e histórico e só foi possível de ser implementado nas sociedades por meio de mecanismos de dominação com raizes profundas derivadas do escravismo moderno (a partir da criação do Estado Moderno em conexão com as primeiras fases do capitalismo) e do tráfico de escravos.

Não há outras maneiras de se pensar o racismo se não dentro dessa lógica.

Vou repetir aqui o que Risério afirmou no artigo da Folha:

Ninguém precisa ter poder para ser racista, e pretos já contam, sim, com instrumentos de poder para institucionalizar o seu racismo.

Não, Risério, é preciso sim ter poder para ser racista. Não só poder de maneira individual, mas estrutural, coletivo e em processos historicamente construídos.

A história do racismo de brancos contra negros é ainda muito recente. Os descendentes de povos africanos escravizados ainda sofrem com o passado do cativeiro e com toda a dominação e destruição de seu povo e de sua cultura. Depois veio o racismo e todo o seu histórico de construção feito por várias camadas da sociedade branca estabelecida com a ajuda de várias instituições que legitimaram esses discursos e essas práticas.

Em outras palavras, dentro da balança do equilíbrio instável de poder, o peso do racismo é muito intenso ainda e nenhum outro tipo de elemento consegue fazer essa balança pender para o outro lado. Dessa forma, ataques de grupos negros contra outras etnias não possuem a mesma estrutura formada em processos longos construídos social e historicamente. Isso até poderá ocorrer daqui alguns séculos, caso tudo o que foi relatado aqui sobre o racismo de negros contra brancos ocorra também do lado contrário. Para isso, brancos deveriam ser escravizados, ter suas crenças e seus costumes destruídos, precisariam sofrer preconceitos de todos os tipos por conta de sua cor de maneira não só individual, mas coletiva e até geracional. O branco (a cor) deveria passar a ser símbolo de maldade e impureza, e precisaria também ser conectado com símbolos de inferioridade dentro do seio social. Dessa forma, por exemplo, a imagem de um Jesus Cristo branco causaria repulsa social, o que poderia ocorrer também com anjos e outros seres do imaginário religioso mundial. Quando coisas desse tipo ocorrerem daqui alguns séculos, Risério, aí sim a balança de racismo poderia sofrer algum tipo de reestruturação. Até lá, qualquer outro elemento a mantém imóvel diante de toda uma construção histórica e social com raizes profundas que impactam até hoje em nossas sociedades.

Resumindo: não existe racismo reverso. E é incrível hoje ainda precisarmos ficar horas e horas defendendo o óbvio, escrevendo ensaios para rebater o óbvio, sendo que poderíamos utilizar nosso tempo para coisas mais importantes para a sociedade, que está regredindo cada vez mais à barbárie e dando voz para aqueles que buscam atacar nossas vitórias no tão suado processo civilizador.

 

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One thought on “Rebatendo o artigo “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo”

  1. José Ailton Alves Moreira

    Muito apropriada, sedimentada e referendada a sua argumentação, Professor Doutor Leandro! Parabéns pelo artigo e pela, ainda necessária, repetição do óbvio!!!

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