por Paulo Roberto Ferreira Motta
Mas voltemos às descobertas de Milton Ivan: Evandro Lins e Silva percebeu que sua única chance de vitória (de Margarida) era colher o depoimento do tenente Chiaparelli. O juiz militar deferiu o pleito e pediu que o Itamaraty desse um jeito de ouvir o militar em Milão, onde ainda estava. Chiaparelli compareceu ao Consulado de Portugal (o Brasil ainda não tinha representação diplomática na Itália) e depôs por escrito, confirmando a versão de Margarida, eis que ouviu todos os que trabalhavam na rádio, que Carlos Pinto foi realmente fuzilado e que Margarida teria o mesmo fim se não aceitasse a ordem. O Consulado português realizou a tradução juramentada e reconheceu a firma do depoente.
O juiz militar, com base no citado depoimento, absolveu Margarida e Antônio. Imediatamente, o Ministério Público Militar recorreu. Naqueles tempos bicudos, não havia a presunção da inocência, mas sim a suposição da culpa. De modo que continuaram presos enquanto aguardavam o julgamento do recurso. O MP pedia a pena de morte ou, subsidiariamente, a de 30 anos. O Supremo Tribunal Militar deu provimento parcial ao pleito ministerial, mas não concordou com as penas pleiteadas, condenando-os a 20 anos de prisão. O deputado gaúcho General Flores da Cunha, com a assinatura de 95 deputados, apresentou um projeto de lei para indultar os dois. O projeto foi aprovado por apertadíssima margem. Em 2 de julho de 1946, o catarinense de Lages, Nereu Ramos, 12º presidente do Brasil, sancionou a Lei.
Soltos durante a noite, Antônio jamais foi localizado pela imprensa. O jornal A Noite conseguiu entrevistar Margarida. Na primeira resposta, disse que estava feliz por ser libertada. Na segunda, afirmou que nunca mais teve notícias dos pais. Na terceira, falou que as presas integralistas tinham tratamento muito mais benigno que as comunistas. A comida era melhor e quente. Tinham camas, lençóis e travesseiros limpos, o que era negado às comunistas. Mudou-se para São Paulo, já que a imprensa carioca não lhe dava tréguas. Como na capital paulista ocorreu a mesma coisa, ela sumiu do mapa. Segundo Milton Ivan, a revista O Cruzeiro colocou 10 repórteres e 10 fotógrafos trabalhando em duplas que varreram o mapa de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Nada feito. Nunca mais ninguém ficou sabendo onde estava Margarida.
Milton Ivan, já afastado das redações, redigiu a matéria e a encaminhou para um dos jornais da cidade, sinceramente não lembro qual. Ao ler a reportagem, Wilson Bueno ficou possesso. Sabedor do horário em que Heller frequentava a Boca Maldita, se mandou e, encontrando o Milton, foi para cima de dele: “Que vergonha, seu Milton Ivan! Logo o senhor que é do conselho editorial do Nicolau, manda uma matéria desse quilate para outro jornal!”. Milton Ivan, segundo Bueno, caiu em si. Era claro que era matéria para o Nicolau. Deu um tapa na própria testa o que lhe fez cair no chão os óculos de grossos aros pretos. Wilson Bueno tripudiou: “Ainda por cima, não deram chamada de capa e publicaram na página das notas fúnebres e dos dias, locais e horários das feiras livres”.
Na época dos fatos, Milton Ivan Heller já havia lançado o livro sobre a repressão no Paraná. O lançamento teve a presença do dono da Paz e Terra, Fernando Gasparian. Ele era um empresário paulista “sui generis”, muito ligado a Ulysses Guimarães. O catálogo da editora era repleto de autores que faziam forte oposição ao regime militar. Além disso, havia sido dono do semanário Opinião, onde despontava um articulista chamado Fernando Henrique Cardoso. Para quem não desejar esquecer o que FHC escreveu, é só ler os seus artigos nas edições completas do referido jornal que se encontram digitalizadas no sítio da Biblioteca Nacional.
Acompanhei o livro do Milton Ivan Heller desde a penetração do espermatozoide no óvulo (a assinatura do contrato) até o parto (o lançamento). Dois ou três dias depois do contrato firmado, quando cheguei para trabalhar, encontrei o Milton pedindo uma reunião com o secretário Dotti, que estava em viagem. Heller então me confidenciou. Havia trabalhado a vida toda em redações com muitas conversas paralelas, gritos, gente falando ao telefone e muitos cigarros acesos. Em casa, depois que a esposa havia saído para trabalhar e a filha na escola, o silêncio era completo e ele não conseguia se concentrar para trabalhar e não havia escrito ainda qualquer linha. Pediu uma mesinha num local qualquer da Secretaria. Tomei a liberdade de, sem ouvir o professor René, que dias depois aprovaria a ideia, de ir ao almoxarifado, conseguir duas mesas sem uso. Colocamos as mesas num corredor paralelo ao gabinete que não tinha qualquer utilidade, dava para a Saldanha Marinho, e a chave da porta da saída havia desaparecido há muitos anos. Apesar de ser um corredor, o ambiente era claro, por cima da citada porta havia uma grande janela de vidros brancos, que permitia a entrada do sol.
Milton disse que iria para casa e voltaria depois do almoço com uma máquina de escrever. Eu disse não. Lembrando do Tancredo Neves, disse ao Milton Ivan que só eu o veria trazendo a máquina e todos perceberiam ele levando-a de volta para casa depois que terminasse o livro. Heller se conformou e na mesma hora conseguimos uma IBM elétrica. Dias depois, o Milton conseguiria os préstimos de uma taquígrafa, que estava sem qualquer utilidade numa Secretaria, dado o fato de que o ofício estava em desuso, que degravava as centenas de entrevistas feitas e datilografava tudo em páginas sem qualquer erro de grafia.