por Paulo Roberto Ferreira Motta
Os textos que Margarida lia, escritos por Mastrangelo, eram de propaganda para minar a moral das tropas brasileiras. Dizia que os brasileiros estavam ali lutando pelos norte-americanos, ingleses e franceses que sempre exploraram o Brasil e levaram as suas riquezas. Que muitos dos soldados da FEB eram descendentes de alemães e italianos e estavam traindo a terra dos seus pais. Convocava nossos soldados à deserção, oferecia comida e lençóis quentes, dizia que seriam tratados de acordo com a Convenção de Genebra, caso se entregassem. Dá para imaginar o que o exército nazista faria com nossos negros e mulatos. Os soldados brasileiros – foi o que disseram Rubem Braga (Crônicas da guerra na Itália) e Joel Silveira (O inverno da guerra), correspondentes no local – ignoravam solenemente a propaganda alemã, estavam apenas curtindo Carmen Miranda. Entre uma música e outra, baixavam o volume dos rádios e nem prestavam atenção nas palavras de Margarida, na verdade de Mastrangelo. Não há notícia de que qualquer soldado brasileiro tenha desertado, do que raros exércitos no mundo podem se orgulhar.
Aliás, o maior herói brasileiro nos campos da Itália foi um descendente de alemães, pelo menos na visão de Rubem Braga, Joel Silveira e inúmeros historiadores: o paranaense de Rio Negro sargento Max Wolff Filho. Em 12 de abril de 1945, a guerra terminou em maio, foi metralhado na altura do peito na região de Montese. Em sua homenagem, a Escola de Sargento das Armas leva o seu nome. O 20º Batalhão de Infantaria Blindado, sediado em Curitiba, também se chama Sargento Max Wolff Filho. A municipalidade da capital das araucárias lhe homenageou com o nome de uma travessa no Água Verde onde se localiza o Don Max, restaurante bastante frequentado, ao menos antes da pandemia. O dono, torcedor do Grêmio e da Chapecoense, deve estar desesperado quando olha a tabela do atual campeonato brasileiro.
Com a avanço das tropas aliadas, próximas da cidade de Como, Mastrangelo desligou os transmissores, pegou todo o pessoal e fugiu para Milão. Dias depois, foram todos presos pelo exército norte-americano. O responsável pela detenção foi o tenente Chiaparelli, que apesar do sobrenome era do exército dos EUA. Ouviu todos e os entregou, Mastrangelo o principal, por evidente, à polícia local e Antônio e Margarida ao exército brasileiro. Como tecnicamente os italianos não haviam cometido crime contra a Itália, foram soltos pelo Ministério Público de Milão.
Antônio e Margarida, nas mãos do Exército brasileiro, foram algemados e encaminhados ao porto de Nápoles onde foram colocados a ferros num navio com destino ao Brasil. Quando desembarcaram no Rio de Janeiro, foram transferidos à prisão, por crime de alta traição. Antônio foi para um presídio comum e Margarida para a prisão feminina. A prisão feminina ainda trancafiava as mulheres comunistas e integralistas que cumpriam longas penas pelos movimentos de 1935 e 1937, e possuía alas diferentes para ambas. O diretor não teve dúvidas, se Margarida trabalhou para os nazistas, fica na ala das integralistas.
O Ministério Público brasileiro entrou com a ação criminal contra ambos e pediu a pena de morte, que existia na férrea legislação penal da ditadura Vargas. Antônio e Margarida precisaram ser defendidos por advogados diferentes, as versões eram conflitantes, Antônio dizia que trabalhou obrigado, sob pena de fuzilamento, o que era verdade, e acusou Margarida de cumplicidade com Mastrangelo e os nazistas, o que era mentira. Margarida jurava que foi obrigada, sob pena de morrer.
Evandro Lins e Silva assumiu a defesa de Margarida, pro bono. Lins e Silva, nascido no Piauí, mas, criado no Rio de Janeiro, era uma espécie de René Dotti carioca, ou vice-versa, tendo em vista a diferença de idade entre ambos. Advogava desde cedo gratuitamente para os perseguidos políticos. Recém formado, dividiu com Sobral Pinto e Antônio Evaristo de Morais, a defesa dos comunistas em 1935. Em 1937, passou, junto com os outros dois, a defender os integralistas. Era um gigante no Tribunal do Júri. Seus duelos com o promotor Cordeiro Guerra paravam o Rio de Janeiro e eram transmitidos ao vivo pelas rádios da então capital. Já veterano, conseguiu a proeza de absolver Doca Street, o assassino confesso da companheira Ângela Diniz. Em novo julgamento, anos depois, sem Evandro na tribuna da defesa, Doca seria condenado a uma longa pena. No governo João Goulart, foi Consultor Geral da República, Procurador-Geral da República, ministro da Casa Civil e das Relações Exteriores e depois indicado para o Supremo Tribunal Federal. Em janeiro de 1969, pelo AI-5, foi cassado do STF, juntamente com Hermes Lima e Victor Nunes Leal. Retornou à advocacia no Rio de Janeiro. Em 2002, com 90 anos de idade, assumiu uma cadeira no Conselho da República, nomeado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. No dia seguinte, 17/12/2002, voltando de Brasília, sofreu uma queda no Aeroporto Santos Dumont e morreu instantaneamente.
Antônio Evaristo de Moraes merece um parágrafo (na verdade muitos): estreou no Tribunal do Júri em 1894 e só veio a se formar em direito depois de 23 anos de prática forense. Foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Imprensa, da Sociedade Brasileira de Criminologia e do Partido Socialista Brasileiro e foi delegado do mesmo na Segunda Internacional Socialista, juntamente com os já citados Evandro e Hermes. Começou como rábula, atuando no direito trabalhista, possuindo obras clássicas sobre o direito laboral. Foi um dos redatores da CLT. Na famosa “Revolta da Chibata”, estreou no ramo criminal defendendo o “Almirante Negro” João Cândido, líder da revolta que queria proibir os oficiais da marinha de chicotearem os marujos. Do primeiro casamento, teve um filho que foi batizado com o nome de Antônio Evaristo de Moraes Filho. Viúvo e novamente casado, teve outro filho a quem deu o mesmo nome, Antônio Evaristo de Moraes Filho. Ambos advogados de nomeada e chamados, para a devida diferenciação, respectivamente, de Evaristinho e Antoninho.