6:04Bolsonarismo e corrupção sempre andaram juntos

por Mário Montanha Teixeira Filho

Jair Messias Bolsonaro foi convidado, um dia, a se retirar do Exército. Como capitão, havia praticado atos “incompatíveis com o oficialato”. Coisa pouca, como explodir bombas em banheiros de uma vila militar, na década de 1980, entre outras travessuras. Condenado em primeira instância, numa sentença que lhe impôs a perda de patente, conseguiu se safar no Superior Tribunal Militar, que acatou a tese de insuficiência de provas dos ilícitos cometidos. Sem ambiente para continuar na carreira, foi para a reserva e ingressou na política.

Eleito em 1988 com uma pauta corporativista, Bolsonaro se tornou vereador da cidade do Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, assumiu o cargo de deputado federal. Aboletou-se nesse meio, para o qual trouxe seus filhos, zero um, zero dois, zero três e zero quatro, além de amigos que fez em territórios dominados pela milícia que dizia combater o tráfico de drogas. Na Câmara, o então deputado se notabilizou por declarações absurdas, em defesa da ditadura militar e de práticas autoritárias, e por mandatos insignificantes. Fazia parte do “baixo clero”, a nata da mediocridade parlamentar.

Os acontecimentos que resultaram na formação da Lava Jato, em 2014, uma força-tarefa do Ministério Público Federal encarregada de investigar casos de corrupção, atiçaram manifestações reacionárias contra o governo reeleito naquele ano. Na Presidência da República, Dilma Rousseff foi submetida a um massacre midiático, ficou isolada politicamente e perdeu apoio no Congresso Nacional. Seu mandato terminou prematuramente em 2016, cassado a pretexto do que se convencionou chamar de “pedalada fiscal”. Pretendia-se, com a ascensão do vice-presidente Michel Temer, reordenar o Estado brasileiro a partir da desconstitucionalização de direitos sociais.

Esse esquema golpista, baseado no discurso anticorrupção, não era para premiar Bolsonaro. Espalhava-se, porém, uma tendência ultradireitista, incorporada por grande parte da sociedade, que beneficiou o ex-capitão e lhe deu de bandeja a eleição presidencial de 2018. O fenômeno se sustentou em propostas como o armamento da população, a censura, o combate à ciência, a prevalência da autoridade e da religião e o conservadorismo nos costumes. Tudo isso sob um jargão ilusório e cínico que prometia: “a mamata acabou”.

Se a racionalidade indicava que o bolsonarismo ascendente e a corrupção sempre andaram juntos e falaram o mesmo idioma, os devotos do “mito” continuavam – e continuam – a repetir o mantra da honestidade do seu chefe. Isso apesar da revelação de práticas como a rachadinha e outras fuleiragens, que proporcionaram o enriquecimento súbito e suspeito da família presidencial. Uma família bem instalada em condomínio na Barra da Tijuca, com vizinhos milicianos e amigos ligados a atividades pouco convencionais, para utilizar um termo educado.

Em 2020, o mundo foi abalado pela peste. Por aqui, a política oficial foi de negação da tragédia que estava em curso. O governo fez um pacto com o vírus destruidor, boicotou as recomendações científicas e jogou o país no caos e no isolamento. O ex-capitão praticou crimes sequenciais, diários, explícitos, como alguém seguro da impunidade, protegido pela ignorância coletiva semeada por um exército de fabricantes de mentiras.

A eliminação física de centenas de milhares de pessoas, aliada ao recrudescimento da pobreza, todavia, murchou o apoio ao monstro. Numa CPI que lhe retirou o sossego planejado, as provas de omissões diante da crise sanitária se multiplicaram. E revelam, agora, o que seria de se esperar: a malandragem do baixo clero, alçada a escalões mais altos do poder, se transformou em corrupção muito maior do que qualquer outra que o passado já registrou. A evidência de superfaturamento de vacinas, exposta na CPI, é o ápice de um plano macabro que rouba o ar de milhões de pessoas para beneficiar raposas velhas e novas – corruptos, para quem ainda não havia percebido.

Não há segredo no escândalo recente. Bolsonaro é ladrão de vidas, uma personalidade afetada pelo mal, um falso líder. Precisa sair imediatamente da vida pública. Ele e seus comparsas, coautores da triste trama que fez do Brasil um continente arrasado pela insensibilidade e pelo horror.

Que se responsabilize, como deve ser, o bolsonarismo por todas as mortes que ocorreram durante a pandemia. E pelas que vierem.

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5 thoughts on “Bolsonarismo e corrupção sempre andaram juntos

  1. SERGIO SILVESTRE

    Em 64 já despontava jornalistas como Alexandre Garcia,Boris Casoy e até o Cid Moreira,simpatizantes da ditadura,mais a frente o Jovem ainda Augusto Nunes.
    Eis que eles ainda estão por ai,só que num acerto pior,hoje defendendo um governo cheio de militares cariocas,oriundos da mesma linha do Bolsonaro;
    Os generais de verdade saíram ou nem entraram nesse governo que mais a frente vamos ver sua verdadeira faceta,sendo o mais corrupto de todos os tempos.

  2. jose

    “Os acontecimentos que resultaram na formação da Lava Jato”, eufemismo para não usar a palavra correta: os tais “acontecimentos” tem nome e sobrenome: robalheira e pt!
    É impressionante a tentativa de reescrever a história, tal qual aconteceu na URSS.
    A dilma caiu por ser um desastre, político e econômico e sua queda foi muito bem vista por muitos lulistas, que não a suportavam por conta dela não ter aberto mão de sua candidatura à reeleição.
    E para finalizar – senão vira “textão” como o post acima, corrupção por corrupção, lembremos do mensalão, que nada mais foi do que o mesmo que se passa agora.
    Aliás, um dos “ícones” desse povo, zé dirceu, foi condenado no mensalão e na lava jato.
    Bolsonaristas e lulistas são iguais e um não existe sem o outro, o cidadão que escreveu o post é a prova disso.

  3. Cláudio

    Apenas para esclarecer que a gloriosa carreira do militar em questão alcançou somente o posto de Tenente, eis que a promoção ao posto de Capitão se deu apenas com o seu ingresso na reserva no posto imediatamente superior ao ocupado na ativa. Também não se trata de “ex-capitão” já que o militar não perdeu a patente.

  4. SERGIO SILVESTRE

    \\\\\\\\\\\\Joaquim Barbosa e o Moro em lugar incerto e não sabido,dois idiotas uteis para o esquema,laranjas chupadas e descartadas o bagaço,mas a maior hipocrisia e falar da corrupção do PT c e comparar com as milicias que assaltaram o poder ,Daqui mais uns dois anos saberemos de tudo que aconteceu,ate a facada no Bolsonaro,foi tudo estranho e continua estranho;

  5. jose

    Prezado pombo silvestre, hipocrisia é criticar os outros pelo mesmo defeito: a corrupção.
    Se até o coroinha gilberto carvalho admite que o pt é corrupto, está mais que na hora de vc deixar de ser hipócrita e admitir: você adora bandidos.

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