6:18NELSON PADRELLA

DIÁRIO DA PANDEMIA

Tem nomes lindos. Estultícia. Tivesse uma filha ia se chamar Estultícia. Tive um professor que se chamava Eurípedes. Quando eu ficasse grande e tivesse filho iria dar nome lindo pra ele. Tive filhos, é verdade, mas nunca cresceram. O primeiro nasceu mortinho e ia se chamar Zenóbio. Nome de general. Zenóbio nem chegou a ver a luz da vida. A menina recebeu o nome de Ida, foi a mulher quem escolheu. Disse que tinha uma atriz do cinema com esse nome – Ida Lupino. Eu teria preferido Lupina, mas agora era a vez da mulher escolher o nome. Um tempo depois, quando Ida seguiu o mesmo caminho do irmão, foi que a mulher revelou: escolhera o nome em lembrança ao primogênito, que tinha ido embora sem nunca receber abraço e beijo. Não tivemos mais filhos. Tivemos cachorros. Uma cachorrada que soubemos honrar com identidades importantes como Hiroito, Ildutche, Pinochê, Lustra e – o último que tivemos – Croroquinho. Cachorros são animais fiéis. Todos os nossos eram fiéis a si mesmos.

Filme: O FILHO (direção dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne) – Um pai move mundos e fundos para provar a inocência de um piá levado da breca.

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