6:40É preciso ser

por Thea Tavares

É preciso manter o brilho nos olhos, carregar o sorriso leve da espontaneidade; expressar uma tristeza inevitável, mas só na medida exata da percepção da realidade e gastar a raiva na dosagem calculada da indignação que nos move e em perseguição a um resultado que de fato faça toda a diferença.

Esse turbilhão de sentimentos e de sensações permeia e perpassa as almas de quem se abre para captar e compreender os sinais de tudo o que nos envolve. E é mais do que necessário se importar. Não é mais possível viver este mundo e esta época sem timbrar o que há de legitimamente essencial, humano e verdadeiro por baixo de máscaras e armaduras.

Ousar ter esperanças. Ousar sonhar. Manifestar gostos e opiniões é um ato que exige toda coragem e total clareza com relação às suas consequências. A cada passo, uma entrega, uma conquista… Uma afirmação!

Vem à cabeça a terceira lei de Newton dos estudos de mecânica, lá das aulas da Física do ensino médio: a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade, mas no sentido contrário. Antes desse conceito, até que foi fácil entender e contestar a inércia, acelerar ritmos de aprendizados – a bem da verdade, atropelar seria mais condizente com nossos ímpetos juvenis – ou atestar a existência e a complexidade da força de atrito nas movimentações por aí, mas a reação sempre foi assimilada ou pelo viés da sua desproporcionalidade ou enxergando um único vetor apontado para o sentido que interessava direcionar toda e qualquer questão. Aquela terceira lei sempre soou um tanto capenga no dia a dia da sua aplicação prática.

A maturidade, ao mesmo tempo que esclarece, convida a revisitar, reassumir e ressignificar as teorias e as formulações clássicas do pensamento humano. A sensação que se tem é de que de novo somos chamados a reagir, a alardear e a protestar para não deixar que quem veio depois, por puro desconhecimento das inúmeras possibilidades, naturalize o encarceramento das liberdades individuais e das inventividades próprias da construção de um conhecimento que, precisamente por ser forjado em si mesmo, em vivências particulares, ganha projeção e identificação universais. Não se pode alimentar a crença de que apenas o que está dado ou em evidência seja a única realidade ou possibilidade de que dispomos.

Na semana passada, durante uma entrevista no perfil do grupo Movimento Gota D’Água (@movimentogotadagua) no Instagram, o jornalista, editor de Cultura e escritor Jotabê Medeiros, autor, entre outros títulos, das biografias “Belchior: Apenas um rapaz latino-americano” e “Raul Seixas: Não diga que a canção está perdida”, emitiu um desses clamores de rebeldia madura e sensata. Quando acreditava-se que ele já tivesse proferido toda sorte de opiniões e de pensamentos inspiradores, ao longo de 2h de sabatina, Jotabê arremata nas suas considerações de despedida as ideias a seguir: “A palavra tem poder de contágio. Acreditem no humanismo, no que a gente pode fazer, no talento e não na barbárie. Ela não existe! A barbárie é só uma reação de gente com medo. De gente que tem medo da vida, das diferenças… de quem tem medo de disputar em igualdade de condições com pessoas que sempre oprimiu, como os negros ou como as mulheres… Quando você sente medo, tem reações como essas de se tornar violento”.

A canção “Pesadelo”, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós, tem uma frase que diz assim: “Você corta um verso, eu escrevo outro”. E é incrível como essas palavras voltaram a fazer sentido para quem guarda na memória o seu significado.

Com o agravante do ambiente da pandemia nessa realidade, o irônico disso tudo é que se o isolamento atual propiciou um autoconhecimento, o distanciamento imposto também favoreceu as aproximações movidas à empatia diante da brutalidade dos dramas, flagelos e das fragilidades dos dias de hoje, e está sendo assim, no mínimo, para que a gente saiba como se posicionar, o que externalizar, compartilhar e como se conectar e se projetar daqui para a frente. 

É preciso deixar que a beleza interior carregue mensagens de esperança e de transformação e que a sabedoria ilumine e esclareça. Cada facho de luz que se acender pode e deverá clarear os caminhos. É preciso só ser! Simples assim.

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2 thoughts on “É preciso ser

  1. SERGIO SILVESTRE

    Pois é,vamos remando no dia a dia,alcançando as metas e gostos,esses vão nos deixando enjoados,vamos atrás de novidades,logo as pernas doem,o corpo não deixa e nos tornamos um frasco opaco e frágil de alabastro.

  2. Thea Tavares

    Sergio Silvestre, “eu é que não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes (quase!), esperando a morte chegar”! Né?

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