7:39NELSON PADRELLA

DIÁRIO DA PANDEMIA

(*) Marylin, minha boneca inflável, ainda vai acabar complicando a minha vida. Agora, ela quer porque quer conhecer o capitão do ofurô. Por mais que eu explique a ela que capitão você viu, viu todos, ela bateu o pé e insistiu que queria conhecer o cara. Não só o cara, como o ofurô. Até fiz uma piadinha pra ela: “Você é má, Rylin”, que ela não sacou ou fingiu que não. Ela também costuma fazer piadinhas a meu respeito. Diz que eu sou um gato. “Um gato, Marylin?” “Sim, um gato de bostas”. Estou me vendo descendo as escadas levando a menina no colo vestida com as roupas da falecida, percorrendo todo o trajeto até o bloco onde habitam o ofurista e seu fiel companheiro, enfrentando vírus que infestam o ar, eu batendo à porta e apresentando a ela um cara que nem eu conheço. Melhor não, meu amor. Então, só me aponte ele quando ele passar. Isso eu podia fazer. Nunca fiz, mas isso eu podia fazer

(*) O general Gumercindo Bravatas decidiu promover uma festa à mascarada nos salões de festas do quartel. Estivera em Veneza, entusiasmou-se com o Carnaval de lá e, aproveitando a pandemia, decidiu fazer o festerê onde todos se obrigariam a usar máscara. O general Gumercindo podia ser meio abilolado das ideias, mas era um respeitador das normas. O general Ariovaldo Meiaboca ofereceu-se para prender as vacas que pastavam alhures e trazê-las para a festa, mas o general Orsini Ostrogodo lembrou a ele que hoje não se prende mais ninguém para participar de festas militares – a norma é convidar. Amuado, o General Meiaboca classificou aquelas vacas de aves de arribação, que hoje arribam algures, amanhã quem sabe.  Na festa, só tinha gente fantasiada de Zorro, que é mesma coisa que nada. Rolou croroquinhas e todo mundo ficou doidão.

(*) Uns fazem crochê durante o isolamento. Outros escrevem lembranças. Não sei fazer crochê, então escrevo. No jornal que meu pai trazia para casa vejo Elizabeth, tão jovem e tão guerreira, defendendo sua Londres devastada pelas bombas. Marcou minha infância a valentia daquela quase menina, encorajando seu povo a resistir. Que tempos tão diferentes, o ontem e o hoje, lá e cá! Aqui, em plena paz nas Américas, desfraldam-se estandartes de guerra contra nossos irmãos vizinhos como se eles fossem o inimigo. Como se não existisse nada mais importante a ser feito.

GRANDES CONSELHOS ÍNTIMOS: “Tudo o que sobe, desce. E tem coisa que depois que desce, adeus tia chica, não sobe nunca mais”.



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