7:09Afinal, o que teme a Lava Jato?

Por Ricardo João

Domingo, perto da hora do almoço, fui surpreendido em minha terapia diária. Justo na minha prazerosa hora de lavar a louça.

Da janela da cozinha, que fica em frente ao balcão da pia, avisto a rua, os eixos que cortam Brasília de sul a norte.

Apesar da visão entrecortada por árvores, mangueiras, flamboyants e os floridos ipês amarelos, tive minha atenção deslocada por alguns poucos minutos por uma pequena carreata. Pequena, porém estridente!

O que mais chamou minha atenção foram os tantos carros de polícia. A serviço, evidentemente. Vários proporcionando a máxima segurança.

Apurando um pouco mais a vista, impressionou-me também a presença de veículos de luxo. Não deixa de ser curioso observar carros importados nesse tipo de protesto, não é mesmo?

Meu filho entra na cozinha e pergunta, em seu estilo livre e reto, se estou entendendo alguma coisa do que a mulher está falando?De fato, é confuso o discurso da “puxadora”, em cima do carro de som.

– Não, pai, ela mistura alhos com bugalhos.

-Acho que não sabe o que fala…

Não é sem razão essa sua opinião. Pelo contrário. Não pude ver a fisionomia da voz feminina que tanto acusa o PGR de querer acabar com a Lava Jato, como protesta contra o STF pelo julgamento da suspeição de Moro, e ainda denuncia a saída de Dallagnol da coordenação do grupo no MPF.

É um desfile de impropérios contra o procurador geral Aras, contra o ministro Gilmar e até contra o presidente Bolsonaro. Só por aí já se vê o nível de confusão mental. Daquela gritaria toda sobra apenas o “anticorrupção”.

O que, importa dizer, não é por acaso. Embrulhar as coisas, neste caso, não é só estratégico para esses manifestantes, como se faz imprescindível para angariar alguns desavisados – a carreata mais numerosa, segundo a imprensa, contou com 200 carros e foi em São Paulo. Aqui, não contei.

Em sã consciência, ninguém é contra o combate à corrupção. Mas em hipótese alguma isso quer dizer que os fins justificam os meios. Não se pode, tampouco se deve, enfrentar quaisquer crimes ao arrepio da lei.
Quaisquer crimes, repito. Sob pena de se cometerem novos crimes. Porque ambas as partes se tornariam potencialmente criminosas. É como se bandido julgasse bandido.

Com os processos da Lava Jato alcançando as instâncias superiores do Judiciário, é inevitável que muitas decisões comecem a ser revistas. Algo absolutamente normal. Mais do que isso, cumpre-se apenas o inegável direito de recorrer, de todo e qualquer réu.

O que é da lei passa a ser encarado por alguns como exceção – para não dizer fora da lei. Numa visão absurda de quem esquece da balança de pratos iguais da Justiça, a simbolizar que o mesmo peso vale para os dois. Quem pensa e age assim o faz politicamente, partidariamente – longe do Direito.

Entretanto, interessa a essas pessoas deixar esse debate em seu nível mais raso, manter a discussão superficial. O que parece ficar cada vez mais difícil, pois muitos estão se dando conta de que foram ludibriados e enganados, tornaram-se inocentes úteis e foram manipulados por outros interesses, sejam eles pessoais ou políticos – quando não, ambos.

Nesse contexto, o jornalismo dito objetivo em nada contribui para esclarecer. Fica também sem mergulhar no assunto. Incrível que a ninguém ocorre perguntar se essas pessoas na carreata de domingo são a favor do abuso de autoridade; se concordam com condenações sem provas.

Tudo bem que aqueles motoristas, por certo, desconhecem o que quer dizer o devido Processo Legal, muito menos que o tal Estado Democrático e de Direito versa, igualmente, sobre interesse diretos e maiores deles – e não somente de quem foi condenado pela Lava Jato.

As lideranças políticas misturarem propositalmente os assuntos, eu entendo. Faz parte da manipulação, do jogo de enganação. Se as coisas ficam claras, como irão convencer essa meia dúzia de ignorantes (alguns inocentes) que ainda batem palmas sem saber porque e para quem?

A história se repete por tragédia ou farsa, já dizia Marx. Nesse caso, inédito talvez, é pelas duas razões. A tragédia resultou na eleição de Bolsonaro. Isso até a cachorrinha Ivy, aqui de casa, consegue alcançar. Enquanto a farsa continua, ou ninguém percebe que tem algo de podre no reino da Lava Jato?

É chegada a hora de se fazer Justiça. Doa a quem doer! Engana-se quem acha que isso interessa somente ao Lula. Interessa a todos os cidadãos. A todos aqueles que verdadeiramente querem uma Pátria Livre, não subjugada a “interesses” internacionais. A todos aqueles que ainda crêem na Justiça.

Deixem julgar a suspeição de Moro. Deixem julgar as estripulias do promotor Dallagnol. Deixem cumprir a Constituição. Deixem rever as delações. Se nada temem, deixem o barco correr, deixem a história andar. Só deixem! Ou, por acaso, há o que temer?

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