Há pouco mais de um mês o Marcelão telefonou no meio de uma manhã. Sempre pensei nele no aumentativo porque era grande não só no tamanho. Chorou a desilusão de uma geração, da qual sou mais uma década mais velho, mas à qual ele pertencia. Tinha 56 anos. Jornalista de primeira, do estilo criador, polemista, mergulhador no que achava ser o certo para a vida dele. Não gostava de ouvir um não, como só os mais sensíveis são. Topava uma briga por nada. Topava uma amizade por tudo. Tínhamos muitos amigos em comum, do saudoso Hélio Teixeira à serpente Ruth Bolognese. Devo a ele o embrião deste blog, pois um dia me tirou de uma assessoria oficial para escrever uma coluna na página digital da revista Capital, que criou na esteira de outras da sua editora. Na edição impressa pratiquei o que chamam de jornalismo investigativo – e olhar aquelas reportagens me fazem agradecer o guri que ontem partiu para descansar, pois estava precisando depois de muito tempo de agruras. Me dava toda a liberdade possível e não mexia um ‘a’ nos textos, ele que poderia, porque entendia do riscado. Escrachamos a banda podre da polícia civil, registramos o último dia da Livraria Ghighone no tradicional endereço da Rua XV, contamos um lado pouco conhecido do verdadeiro “Bicho de Sete Cabeças”. O melhor de tudo era ouvir da boca do chefe um elogio, eu um eterno estagiário na profissão. Na redação, que ficava na casa dele ali pelas bandas do Cajuru, eu acompanhei também o começo de seu caminho pouco saudável – da comida sempre pesada ao que aliviava suas dores à noite. Nunca falei nada, eu um sobrevivente do álcool, porque ele não aceitaria o conselho, como fez anos depois quando estava no leito de um hospital. Marcelo era mais um romântico cujo coração parecia atração para punhais de bolero. Seu prazer maior era desenhar as revistas – inteiras. Era craque nisso. Na última conversa que tivemos, cada um contou histórias desse e de outros tempos. Ele disse que seria bom juntar relatos parecidos de gente que viveu nas redações movidas ao matraquear das máquinas de escrever. Uma que ele não sabe é que, quando tinha uma coluna que escorria veneno do Jornal do Estado, um governador que nunca se incomodava com pancadas, chegou a sugerir sua degola para o secretário de Comunicação. A conversa parou aí, porque o jornalista conhecia um pouco a alma do Marcelão e telefonou para saber o porquê de tanta fúria. Não era nada pessoal, etc., era o jeito do Marcelo expor sua força. Depois, ele se acalmou, porque, no fundo, era um anjo com asas que às vezes não o obedeciam. Talvez por isso o seu emprego de verdade numa estatal há algum tempo não o seduziu, apesar do bom salário. Foi mais uma carga a se juntar com outras de onde ele fazia esforço para sair, mas pelo lado que não abre perspectiva. Ontem o grande Marcelo Motta saiu de vez do cenário. Que descanse em paz. Amém.
Triste pela partida do Marcelo. Companheiro e amigo.
Estivemos juntos em muitas jornadas. Na Distribuidora Ghignone, jornal Primeira Edição, Guia de Curitiba, revista
CAPITAL, Assessoria de imprensa da Sanepar e muitas campanhas politicas.
Editor de gosto refinado, articulista inteligente.
Ético e competente.
Deixa muita saudade. Siga em paz!
Belo texto
Meus sentimentos à família e amigos do Marcelo …
Marcelo era meu irmão. Irmão do meu irmão Maurício Motta. Gente do bem, da pureza e da amizade sincera. Gente como a gente, daqueles que realmente farão falta. Abra o caminho pra nós, Marcelo; até um dia!!
Valeu Zé, o Marcelo te adorava…
Lindo Zé. Marcelo sujeito do bem.