6:48Mais tarde

por Thea Tavares

– Filha, preciso falar com você! Diz a mãe do outro lado da linha.
Isso em plena “quarentena”, metáfora para esse conjunto todo de incertezas, formado pelo isolamento social, pelo pânico diante de um vírus invisível, mas letal, do medo de morrer sem se despedir etc. Vamos lá!

Voltando ao diálogo…

– Filha, preciso falar com você.

– Agora, não dá. Estou vendo filme.

– E depois?

– Beleza! Se eu lembrar.

– E se não lembrar?

– Depois, bem mais tarde, você me manda mensagem, fazendo aquele drama, que eu lembro.

– Mas se eu mandar mensagem, serei eu quem estará lembrando você.

– Você quer que eu lembre ou quer me contar alguma coisa? Escolhe.

Mais tarde, bem mais tarde…

(Agora, por mensagem de áudio): – A criatura vai conseguir falar com a pobre e infeliz mamãezinha antes do dia das mães?

– Quando que é? (isso em plena pandemia!).

– Tchau! Amanhã a gente conversa.

– Então, nem era urgente.

Entre dramas e passadas de régua, na verdade, mãe e filha se divertem nessas provocações trocadas e com o ritmo da relação que elas estabeleceram desde sempre. A forma que encontraram de camuflar a saudade, de diminuir o peso da distância e para conferir certa leveza à realidade.

Passaram-se alguns dias… Mais tarde, quando o relógio cravou a meia noite de sábado para domingo, o telefone voltou a tocar:

– O que foi? Mãe é bicho apavorado por excelência com toques de telefone.

– Feliz dia das mães!

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.