por Thea Tavares
“Essas feridas da vida, Margarida
Essas feridas da vida, amarga vida
Pra você gostar de mim”.
(Veja Margarida – Vital Farias.)
Quando passar tudo isso, ela deseja ver o crush de novo. Nem que seja como sempre foi, por ligeiros cinco minutos, mas todo santo dia. Quer ter a certeza de que seu olhar doce ainda está no mesmo lugar. Talvez calejado pelo sofrimento desses dias tão apavorantes, mas com aquele brilho que ilumina um dia nublado do inverno em Curitiba e com o sorriso caprichosamente desenhado na boca, anúncio de boa estação. Dois traços seus que acendem uma chama de esperança dentro de quem os enxerga.
Se a ousadia a impulsionar, fabricada na angústia da espera e agravada pelas incertezas da clausura imposta pela pandemia, ela vai lhe dar um abraço bem apertado, terno, que nem precisa ser muito demorado. O tempo suficiente para confirmar uma certeza quase física que nutre de já conhecer aquela sensação, aquele gosto, o calor e o aconchego dos seus braços. Sempre que o vê e que ele a percebe também, nota que seu corpo meio que se estica todo, para parecer maior e sobressaltado. Como se precisasse ir além de quem ele simplesmente é para cativar a atenção disfarçada dela. É quando a mulher tem aquela sensação de reconhecimento, carregada de uma saudade incompreensível, estranha e calada por uma mistura de timidez com medo da rejeição.
Mas sua esperança mesmo é de que estes dias não levem embora nada do que nele a fascina. E lhe conforta pensar que tudo estará lá num futuro próximo. Que esses traços permanecem impressos e intactos agora, acarinhando e protegendo as pessoas ao seu redor. Conforta ainda imaginar que ele possa atravessar esse período com uma confiança que, se não for inabalável, ao menos seja resistente. É tudo em que precisa confiar. De seu lado, ela paranoicamente faz tudo, tudo, mas tudo mesmo o que se recomenda para tentar passar por essas trevas na história da humanidade com o mínimo de sofrimento e de traumas, sem saber ao certo o que esperar dessa bárbara novidade anunciada.
“Aonde quer que eu vá
Levo você no olhar”
(Aonde quer que eu vá – Paralamas do Sucesso).
Ileso, ileso, ela não acredita que alguém saia dessa assim, mas nada também de dar sorte ao azar. Se sonha, é porque em seu horizonte está a promessa de um abraço, daquele abraço estranhamente conhecido e há muito esperado. Se reza, sua oração vem imbuída de uma súplica: que ao final de tudo isso ainda restem na gente sentimentos que embelezavam nossa realidade, como a própria esperança, a paixão, o altruísmo, a compaixão, o apego… Que o isolamento não tenha vindo para expropriar, mas para acentuar essas coisas na alma e nos impulsos da gente. Que restem essa mulher e seu crush. Porque da sua janela, sobre uma rua vazia, onde todos os dias ela implora pela cura do mundo, a mulher guarda um pedido particular e desprendido em forma de prece: fique vivo! E isso lhe basta.