por Thea Tavares
O Rodrigo não estava se divertindo com a cara de ninguém. Entrou na sala realmente intrigado, contando uma novidade. Os olhos eram como os de uma criança diante da descoberta, quando disse que seu canarinho belga estava cantando num volume exagerado, muito alto mesmo, estranho e diferente do normal. Ele acordou com isso.
Quando foi investigar a situação, percebeu o vizinho aparando a grama de casa. O cortador de grama também fazia muito barulho e seu canarinho parecia competir com o ruído da máquina. A determinação do passarinho era a de abafar e superar aquele som horroroso. A pobre ave se esforçava até o limite de suas forças e do alcance do próprio canto, sem sombra de desistência. Rodrigo se dividia entre preocupado e orgulhoso do passarinho.
Claro que deve existir explicação mais lógica e mais simples que essa do Rodrigo, mas ele não foi atrás de saber e a observação naquele momento era o único método científico disponível. Veio à lembrança um experimento feito por pesquisadores de uma universidade brasileira para conhecer, identificar e catalogar as aves de uma determinada região de mata e extrair uma variedade enorme de informações sobre a vida delas, rotas migratórias e seus hábitos. Há observadores de pássaros profissionais e aqueles que se deliciam com essas curiosidades. Tem até circuito turístico para o hobby espalhados pelo mundo.
A fim de atrair as aves para os locais em que puderam instalar câmeras de monitoramento, os pesquisadores espalharam caixinhas de som pelas árvores e, por meio delas, reproduziam sons de diferentes espécies de pássaros, que de antemão eles pressupunham viverem ali. Eles partiam da ideia de que elas viriam atrás dos sons de seus semelhantes, mas sempre se surpreendiam com passarinhos inesperados e era assim que surgia a descoberta de novas espécies vivendo ou de passagem por esse habitat.
Em outro contexto, o Rodrigo seria um desses curiosos, mas por enquanto a constatação de que o canarinho cantava estridente para concorrer com a barulhenta máquina de cortar grama lhe bastava para racionalizar aquela situação. Eu já me vi encasquetada com outra coisa bem diferente e levei para outro lado: tem situações na vida que exigem da gente fazer como o canarinho belga do Rodrigo.
Não importa o quanto pareça estranho ou insano às pessoas em nossa volta, mas temos de gritar acima do barulho ambiente para sermos ouvidos ou respeitados. Mulheres, em especial, enfrentam circunstâncias assim todos os dias nos espaços públicos ou privados de convivência. Quando sua manifestação começa a incomodar os ouvidos dos demais é também quando suas palavras, opiniões, atitudes e propósitos começam a surtir efeito.
Até que o mundo mude e elas não precisem mais se esgoelar tanto, pela naturalidade do direito de serem ouvidas, especialmente no desempenho profissional ou na política, é necessário imitar o canarinho belga do Rodrigo. Seremos sempre atacadas, chamadas de loucas, de bruxas e ‘trocentas’ coisas consideradas piores ou ofensivas, mas será impossível dormir com o barulho ensurdecedor de uma pessoa que exige seu espaço e suas oportunidades de projeção e de realização.
Quiçá teremos a sorte de também sermos atraídas pelo cantar de outras e de mais e mais dessas. Daí, já estaremos falando em mudança no curso da história. Só isso. A ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, disse uma frase emblemática sobre a participação das mulheres na política. É mais ou menos assim: “quando uma mulher entra para a política, muda a mulher. Quando muitas mulheres entram para a política, muda a política!”.