7:36O “app” do ser humano

por Thea Tavares

Tem aplicativo para tudo nessa vida. E ainda vão inventar novos para as funcionalidades que a gente desconhece ou que a gente ainda nem imagina que não possa mais viver sem elas. Tem aplicativo para se deslocar, para não precisar sair de casa, para conhecer gente, para se isolar do mundo… Para tudo quanto é gosto! Dispensa-se manual de instruções. Basta se bater um pouquinho para adivinhar sua praticidade e virar logo o melhor usuário da ferramenta.

Neste exato momento em que escrevo, ouço música por um desses, sei das novidades que pulam e se anunciam na tela do meu computador, posso ver que o tempo lá fora mudou e saber do sofrimento que o meu time do coração me impõem no campeonato brasileiro deste ano. Em uma tela paralisada, tem também metade do episódio de uma série que me aguarda para continuar acompanhando o desenrolar da trama do ponto em que parei de ver e, se o estômago reclamar e a conta bancária assim o permitir, posso me socorrer pedindo para trazerem a comida até a porta de casa, visto que a preguiça de me mexer e cozinhar é neste instante desanimadora.

Aquelas histórias de ficção científica dos livros, que viraram filmes, animações e programas de TV, estão diante do nosso nariz, ao alcance das nossas mãos ou bolsos. Cabem nos nossos telefones celulares e um dos melhores exemplos é a maravilha tecnológica das vídeo-chamadas. Do desenho dos Jetsons, faltam poucas coisas virarem realidade, como os carros voarem, caberem numa mala, cadeiras e cápsulas flutuantes, que ejetam as crianças para a escola, mas a essência e o conceito operacional de muitos desses dispositivos já estão espalhados por aí, em pleno uso. A Rosey mesmo, na forma humanoide ou não, está no aspirador de pó que fica zanzando pelas casas abastadas dos seriados coreanos e lembra muito o design de uma marca de cafeteira elétrica que usamos na firma.

Encontramos na tecnologia tudo quanto é tipo de solução ou de facilitador para o nosso dia a dia. Fica latejando na cabeça a hipótese de que, embora toda tecnologia nasça da inventividade humana, é dessa mesma mente e coração humanos que se problematizam todas as coisas. Nossas angústias, nossos apegos, confusões, incertezas, saudades, medos e nossas vontades, aqueles impulsos arrebatadores de sandices, de genialidades e de sentimentos.

Como bem me lembrou um amigo há pouco tempo, citando as palavras cantadas por Sérgio Sampaio: “as pessoas são uns lindos problemas”! E são mesmo. O encanto da vida reside nessa humanidade latente e motivacional. Na proporção inversa, os desencantos ficam por conta do afastamento disso, da desumanização e do desrespeito..

Ainda não inventaram um aplicativo que substitua o que há de mais essencial e surpreendente no ser humano: seu sentimento. Ainda não criaram nada que supere a química da pele, a energia que existe dentro da gente e que transcende para se combinar por aí ao acaso, nos animando e movendo à interação com as pessoas, edificando as histórias de vida e as realizações. A despeito das convenções e dos medos.

Não bolaram o “app” que coloque um sorriso espontâneo no rosto quando a gente recebe aquela mensagem tão ansiosamente esperada, que faça disparar um coração quando enxerga a pessoa amada, quando os olhares se cruzam ou se evitam timidamente, revelando as intenções mais escondidas e a insegurança mais mal guardada… Quando os corpos se tocam e desejam se fundir até se confundir. O que só com sentimento e genialidade humana permitiu ao Chico dizer “meu sangue errou de veia e se perdeu”.

Esse app é o ser humano e quanto mais ele se distanciar da sua natureza, menos leve a vida da gente fica. Pode ter inúmeras facilidades, das mais caras às mais em conta, mas, uma vez desumanizada, bela e alegre é que essa vida não fica.

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