11:51Sobrevivente para contar

por Ticiana Vasconcelos Silva

Palestra de Roberto José da Silva. Universidade Tuiuti. 01 de novembro de 2019. Pai.
Ele fala como alguém que sabe. E sabe. Como? Não sei, mas sabe. Desconfio que as viagens ao fundo de si mesmo por um caminho perigosíssimo deram a ele essa lição que poucos sobrevivem para contar. E ele bate na tecla diariamente da besteira que é acharmos que maconha é droga de uso social, que não leva a outras drogas, que não há dependência, que se sai do vício a hora que se quer. Para ele, que sabe bem a rota, não se brinca com algo tão sério.
Minha missão é falar sobre ele, mesmo que seja um tanto quanto desafiador colocar em linhas toda uma experiência de quem foi ao inferno e hoje é quem volta semanalmente ao AA para dar a mão e desvela sua alma aos que precisam.
Me emociono ao escrever sobre isso. Um trabalho em silêncio, um trabalho não noticiado, um trabalho que poucos se comprometem, porque esta consciência do caminho das drogas é o pesadelo em que muitos arriscam a nunca mais sair.
Meu pai, falar que sinto orgulho é pequeno demais. Sempre me questiono: ter você como pai é algo que ainda descobrirei como código de almas que se amam e estão ligadas pelo mistério mais bonito dos céus.
Parabeniza-lo é ato comum. É muito mais que isso.
Meu mestre das palavras, meu amor mais profundo, a honra, a glória, o orgulho de uma filha que jamais te condenou. Que chorou, que sofreu, que entendeu, que perdoou não um ato, mas sim o compreendeu por simplesmente querer te ter ao nosso lado e saber que a sua grandeza não o deixaria ir sem estar aqui para esse trabalho. E mesmo na ausência de seus dias escuros, você estava com seus filhos e pais em pensamento. E nós te seguramos naquele dia em que você ligou pedindo socorro.
Você nos ensina o que é ser maior que toda dor, a superar as truculências para não cair na ignorância de se perder. Meu anjo, não por ser realmente alguém que salva seres humanos nesta difícil situação das drogas, mas porque me salvou e me salva todos os dias.
Que muitas almas tenham a honra de estar em frente a um homem que não tem discursos, mas sim a inteligência, sensibilidade e coragem de dizer: só por hoje.

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3 thoughts on “Sobrevivente para contar

  1. Célio Heitor Guimarães

    Mestre ZB:
    Só por hoje e para sempre, é uma bênção ter uma filha com a Ticiana e os demais que você tem.
    Orgulho-me muito de tê-lo como amigo. E pelo trabalho que você faz.

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