de Manoel de Barros
A gente morava na última casa de uma rua. Depois o mato começava. Dois trilheiros entravam pelo mato. Um trilheiro dava no rancho de Nhá Velina Cuê que comia feijão com arara, quati com abóbora e cobra com mandioca. O outro trilheiro esbarrava no rio. Os meninos brincavam nus no rio entre pássaros. Tinha um Bolivianinho, boliviano pé de pano entre os guris. E um Gonçalo pé de galo orelha de meu cavalo. Acho que o pé de pano do boliviano era só para trovar. Assim como o pé de galo do Gonçalo. Descobri nesse tempo que os apelidos pregam mais quando trovam. Depois descobri naquele lugar a palavra abandono. A palavra funcionava dentro e fora das pessoas. Eu não sabia se era o lugar que transmitia o abandono às pessoas ou se eram elas que transmitiam o abandono ao lugar. Eu conhecia a palavra só de nome. Mas não conhecia o lugar que pegava abandono. Por antes a força da palavra é que me dava a noção. Mas em vista do que vi o olhar reforça a palavra. O olhar segura a palavra na gente. O cheiro e o amor do lugar também participam. Todos os seres daquele lugar me pareciam perdidos na terra, bem esquecidos como um lápis numa península. Mas Nhá Velina Cuê me falou: este abandono me protege. Acho que esse paradoxo reforça mais a poesia do que a verdade.