Lembro daquela tarde parada, nem quente e nem fria, eu estava sozinho na casa e escolhi sentar num canto escuro, entre as janelas que davam para o riacho. De onde estava posicionado via pela porta aberta o caminho que saía da casa e ia encontrar a picada que levava aos outros ranchos. Estava olhando justamente para onde os caminhos se encontram quando um senhor idoso, que eu nunca havia visto, parou exatamente ali. Mexia no pendão de uma planta, sem interesse, e de repente olhou diretamente para dentro da minha casa. Não poderia me ver, disso eu tinha certeza. Depois, decidiu ir embora. Mas, antes, levou dois dedos à testa, como se fizesse um cumprimento militar ou estivesse apenas dando adeus. Mesmo sabendo que eu não estava sendo visto, respondi ao cumprimento, levando dois dedos à testa.
O tempo passou e sepultou o episódio. Minha casa foi derrubada pela estupidez e pela inveja, e decidi não voltar mais ao Marumbi. Mas, um dia, muitos anos depois, aceitei convite do Gica (Giancarlo Stalke) para passar o Natal com sua família em sua casa de montanha.
Voltei ao local onde esteve, por mais de vinte anos, a casa mais engraçada do Marumbi. Não se via nenhuma tabua em pé, nem uma única telha. Respeitosamente, o Marumbi cobriu tudo o que fora nossa casa com o delicado manto das coisas verdes. Levado por uma mão invisível fui posicionado exatamente onde os caminhos se cruzam. Foi quando lembrei do velho que, no passado, dizia adeus ao jovem que eu era. Então, olhei bem forte para a parte do mato onde eu devia estar naquela ocasião e levei dois dedos á testa. E me despedi daquele que um dia teria sido ao levar dois dedos à tesfa e dizer:”Fique bem, garoto”.