por Michael França, na FSP
Amadurecer é reconhecer que nenhum grupo tem o monopólio da razão e da virtude. Polarização empobrece o coletivo ao transformar pessoas em caricaturas e verdades parciais em dogmas
Existe algo empobrecedor em transformar opiniões em trincheiras. A política deveria nos ajudar a organizar conflitos, corrigir injustiças, testar soluções e melhorar a vida das pessoas. Em vez disso, virou uma máquina de absolver aliados e condenar adversários antes mesmo que eles terminem uma frase.
Enquanto uma parte expressiva da esquerda passou a enxergar virtude automática em tudo o que prega, tem-se outra parte expressiva da direita que passou a enxergar ameaça em tudo que tenta corrigir desigualdades históricas. E, no meio desse campo minado, a inteligência pública vai se deteriorando. E, nesse passo, vamos perdendo sucessivas oportunidades de crescer como nação.
A cegueira ideológica tem um mecanismo de funcionamento interessante: primeiro, ela oferece pertencimento; depois, inimigos; por fim, uma explicação que, em muitos casos, é superficial para quase tudo. Assim, gradualmente, a pessoa deixa de avaliar fatos e passa a proteger uma identidade.
E, uma vez que a política vira meramente um reflexo de identidade, mudar de opinião parece traição, e admitir que o outro lado tem razão em algum ponto pode parecer fraqueza. Então, a vida pública se torna uma disputa infantil entre pureza e pecado, e o outro começa a virar apenas uma caricatura.
Perceba o quanto perdemos com isso.
Perdemos a capacidade de reconhecer problemas reais quando eles aparecem no suposto lado errado. A direita, por exemplo, geralmente enxerga a desigualdade como desculpa de quem não se esforçou o suficiente. Por sua vez, a esquerda, às vezes, trata temas como segurança pública, responsabilidade fiscal e eficiência do Estado como se fossem apenas obsessões conservadoras.
Nos dois casos, a sociedade paga a conta. Porque desigualdade ignorada vira ressentimento. Estado ineficiente vira descrença. Violência tratada com bravata vira medo cotidiano.
Uma pessoa madura deveria ser capaz de dizer: a esquerda tem algo importante a ensinar sobre proteção social e concentração de riqueza. A direita tem algo importante a lembrar sobre liberdade individual e os limites do Estado. O erro começa quando cada campo transforma suas verdades parciais em dogma. A partir daí, qualquer divergência vira heresia.
E o que dizer da perda da compaixão? Uma vez que alguém passa a ver o outro apenas como expressão do mal, ele deixa de enxergar sua história, seus medos, suas perdas e suas razões. O trabalhador que vota na direita vira alienado. O jovem progressista vira revolucionário de apartamento. O empresário vira explorador. O rico vira parasita. O militante vira doutrinado. E, assim, as pessoas e a humanidade vão desaparecendo atrás de rótulos.
O mais curioso é que muitos dos que criticam a polarização também participam dela. Dizem defender o diálogo, desde que o diálogo confirme suas crenças. Dizem valorizar a ciência, desde que as evidências não contrariem seus desejos. Dizem querer justiça, desde que ela alcance os inimigos primeiro. Dizem defender a liberdade, desde que os outros usem essa liberdade para concordar com eles.
A maturidade política começa quando aceitamos que ninguém está certo o tempo todo. Nem a esquerda. Nem a direita. Nem o centro. Nem os intelectuais. Nem o mercado. Nem os movimentos sociais.
Toda visão de mundo tende a iluminar certas coisas enquanto escurece outras.
*O título é uma homenagem à música “Cego com Cego”, de Tom Zé e Zé Wisnik.
A realidade ainda não bateu nas redações, mas timidamente começa a aparecer:
https://www.estadao.com.br/opiniao/lula-quebra-o-brasil-para-se-reeleger/?utm_source=facebook:newsfeed&utm_medium=social-organic&utm_campaign=redes-sociais:052026:e&utm_content=:::&utm_term=&fbclid=IwVERFWASU0r5leHRuA2FlbQIxMQBzcnRjBmFwcF9pZAo2NjI4NTY4Mzc5AAEebXkivLip5yStAWSd4tT-Rh0jxIWC3o1Qq-CnTTUW-sTbfRNQIk7ED-2RvLo_aem_sW49PBxcu_VHDXst8XfvqQ