19:11ZÉ DA SILVA

Coloquei na manchete que o sujeito tinha dado um buquê de rosas para a mulher e ela imediatamente o livrou de acompanhá-la ao supermercado todo sábado à tarde. O dono do jornal me chamou de louco e disse que tinha recebido telefonemas furibundos afirmando que aquilo não era notícia. O doutor, que gostava de ser chamado de jornalista, mas não sabia escrever um ó, apenas gastar saliva para arrancar dinheiro da prefeitura e do governo do estado, perguntou se no dia anterior não tinha acontecido nenhum crime maravilhoso ou algum resultado de jogo felomenal. Era assim que ele falava, enquanto coçava a barriga à mostra entre dois botões da camisa pronta a explodir. Eu disse que chacinaram uma família inteira numa quebrada – e mataram até o bebê recém-nascido, que ficou sem a cabeça com o tiro de escopeta. Ele deu um pulo da cadeira e quis saber se tinha foto do presuntinho. Eu disse que sim. Ele me demitiu na hora dizendo que eu não sabia o que era notícia, que era um absurdo o piso salarial que me pagava, etc. Cuspi na cara dele, enfiei dois dedos nos olhos, ele gritou com um misto de gosma e sangue escorrendo dos dois buracos, chamei o fotógrafo, pedi o registro e dei ordem ao editor de polícia para manchetar no dia seguinte o ocorrido. Fugi, troquei de nome e fui trabalhar em outro jornal no fim do mundo. Sempre lembrei do que aconteceu, mas não me arrependi, mesmo porque faço o supermercado todo sábado – mas sozinho.

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