18:23ZÉ DA SILVA

Olhei a foto da turma do quarto ano primário. Ele se destacava. Enorme. Sempre foi. Criança também. Tinha o sorriso e a mente ingênuas. Gostava de doce. Diabético, nunca deixou o prazer. Começou a sofrer muitos anos depois daquela imagem. Antes, descobriu-se um motorista como nenhum outro. Viajou o Brasil levando turistas. Seu ônibus era um brinco reluzente trafegando sobre as serpentes cinzas. Coca-Cola seu combustível preferido. Foi aposentado pela doença. Pilotava seu Santana como se estivesse num Rolls Royce. Começou a perder a  visão, quase perde partes do corpo, mas o doce era sua droga. Dizia que iria morrer de qualquer jeito. Começou a ir embora no dia de Natal. Mas sofreu muito depois do AVC. As filhas e os netos o amavam. Menino de quase 70 anos. O coração? Maior que ele. Não se cuidou. As crianças se acham imortais.

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