19:46ZÉ DA SILVA

Ninguém pode me acusar de não ter guardado dinheiro na vida. Guardei, sim, porque me encantei com a cor e o tamanho daquelas notas. Eram de um passado remoto, mas para mim sempre valeu a beleza, não o valor. Notas estalando de novas. Comprei numa banca de feirinha. Escolhi alguns livros para guardá-las em espaços de páginas contadas. Os livros também eram novos. Guardei segredo para mim mesmo. Pisquei e o tempo voou. Cadê a escrivaninha/estante que ficava entre minha cama e a do meu irmão? Onde foram parar os posteres pregados  om durex na parede mostrando desenhos underground e um Hendrix colorizado? Os donos da casa já partiram. Um pé de ipê comprado no mercado municipal cresceu e floriu no quintal. Constatei muitos anos depois ao fazer a visita de recordação ao bairro. Não lembro quem eram os autores dos romances, mas sei que Rosinha Minha Canoa e Meu Pé de Laranja Lima tinham ficado bem pra trás. O bom é que posso inventar agora, colocando o dinheiro na violência de Rubem Fonseca, que ficou para sempre. Graciliano Ramos era da família, pois vizinho para o lugar onde retornaram os donos da casa. Mas as notas… Perdidas no tempo ficaram. Talvez por isso até hoje continuo durango – e só junto dinheiro em forma de moedas no porquinho de cerâmica. Não para ter algum depois de um tempo, mas para sentir o prazer de abri-lo com uma única martelada.

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