17:23ZÉ DA SILVA

Perdi a vontade de viver, mas não tenho coragem de me matar. Este o verdadeiro inferno. Você pode me ver em qualquer cidade grande do país. Inventaram um nome que é a cara de quem o criou: morador em situação de rua. Não é do caralho? Como restos encontrados nos lixos. Bebo até álcool puro, quando posso comprar. Já experimentei todas as drogas. Claro que queria morrer. Não deu certo. Essa coisa entrou em mim há anos, quando era profissional respeitado, família certinha, casa no bairro nobre. Na verdade estava lá desde que nasci – e foi crescendo até chegar a hora em que eu disse para mulher e filhos que ia embora. Espantados, perguntaram pra onde. Pra rua, respondi. E fui, com a roupa do corpo. Não me importo com a sujeira que virou uma segunda pele pra mim. O que resta de cabelo já bate nas costas. A barba, no meio do peito. Me incomoda, sim, aquela coisa, que nunca saiu. Vivo sob marquises, deitado, quase imóvel, olhando sem ver, respirando por obrigação. Já me perguntaram o motivo da minha decisão em me largar. Não aconteceu nada, mas era preciso, para não enlouquecer fazendo tudo de uma forma forçada, me achando o pior dos homens. Continuo assim. Torço para que, numa noite gelada, eu descanse definitivamente. Não acredito que aquilo que tenho na alma vá me acompanhar para lado escuro da existência.

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