20:58ZÉ DA SILVA

Andava chorando pelos cantos, mas não contava pra ninguém o motivo. Do cara alegre, piadista, dono de uma energia que contagiava, restou um molambo qualquer. Parou de comer, de tomar banho, não dormia direito. Quando isso acontecia, sonhava com ela, acordava assustado, coração na boca – e dá-lhe mais choro. O primeiro encontro foi numa rua movimentada do centro. Eles se olharam e nem precisaram conversar. Ele imediatamente a levou para casa, onde morava sozinho. Era um solitário por opção. Nunca namorou, apenas teve paixões platônicas no colégio e, uma vez, no trabalho – mas jamais se declarou. Tinha medo. Também se achava horroroso ao se olhar no espelho. Mas agora não, ela estava ali para lhe fazer companhia até que… Aconteceu, numa manhã de sol, homens fortes entraram na casa e a levaram. O chão fugiu dos pés dele, que queria salvá-la, mas era impossível. Não tinha pago as prestações – e a geladeira amada voltou para o depósito da loja, esperando novo comprador. Só de pensar em outras mãos a tocando ele sentia facadas no coração. Assim, perdeu o emprego e a vontade de viver. E ela? Um funcionário jura que um dia viu um pingo escorrendo feito lágrima do alto da porta até a maçaneta. Alguém tratou de secar aquilo com um pano.

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