17:35ZÉ DA SILVA

A palavra é que fica. Ele recebeu o telefonema no meio da tarde. Quando disse oi, do outro lado ouviu o diminutivo do seu nome. Ele vinha lá de longe, bem longe, milhares de quilômetros distante. Era uma voz que não tinha súplica, apesar de a dona estar com doença terminal – a que a levou à UTI. A voz tinha uma interrogação, para se certificar de que quem a estava ouvindo era ele mesmo. Confirmou, falou um pouco, e ela, sempre resignada, o confortou. No início da madrugada seguinte não havia mais voz. No novo telefonema foi confirmada a morte. Ele chorou pouco, colocou algumas roupas numa mala e, cedinho, partiu. A encontrou dentro de um caixão na sala da casa. Viu o companheiro dela fora da couraça de ferro chorando feito criança. Ele se segurou. Foi ao enterro e depois voltou. Há anos chora mansinho quando pensa nela e ouve aquela voz. Mãe.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>