17:22ZÉ DA SILVA

O Santos estava em campo, mas eu só via o goleiro Gilmar com aquele uniforme todo preto e o escudo no meio do peito. Seguro ao extremo, foi capaz de buscar uma bola no limite esquerdo da grande área e dar um passe para alguém do outro lado, ela rolando mansa perto da linha fatal. Ao fundo, a concha acústica do Pacaembu. Peguei um ônibus. Lotado. Todos os passageiros descobriram em seguida que o destino era outro – e o motorista um louco. Foram cobrar. Ele perdeu o controle, entrou num sobrado, caiu uma lage em cima do busão, pulei fora, vi o povo espremido e apavorado querendo sair. Logo depois entrei num táxi. Era amarelo e feito de plástico. Todo aberto feito um bugue. O piloto disse que sabia o caminho para as quebradas. Entrou por outras, muito estranhas, pirambeiras de terra, barracos aqui e ali. Parou na frente de um sobrado. Pegou minha bolsa que estava no banco de trás. Tirou a carteira. Disse que era um assalto. Da calçada, me devolveu os documentos. Ficou com duas notas de cem. Ordenou que eu me mandasse. No carro de plástico. Fui. Acabou a gasolina. Acordei. O remédio para gripe ainda fazia efeito. Derrubei um copo. Levei um esporro. Fiz o café. O cachorro latiu. Dentro de casa. Onde estou?

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