17:55ZÉ DA SILVA

Puxo o fio no detalhe. Nem eu sabia, mas assim é a vida. Descobre-se, ou melhor, alguém que sabe mais diz. Então se olha – e concorda. Deitado em cima da mesa e ouvindo o único gênio que conheci, ele leu um escrito e fez a revelação. Aí pediu que eu fosse atrás de Willian Saroyan, coisa realizei muitos anos depois. A unha do dedo mínimo de um monumento de mulher, por exemplo. Ele disse que eu deveria falar nisso para o “avião” que passava no corredor do prédio e fazia tremer tudo em volta. Ela pegou o café no copinho de plástico e eu segui a instrução. Ficamos amigos – e os babões não se conformavam com a ousadia do menino cabeludo e barbudo. Mais tarde revi as leituras. Estava ali o que me atraía. Uma parede descascada, o aviãozinho vermelho pendurado no teto da sala, uma faca espetada num caderno, o sapato da mãe e o barbeador do pai guardados como relíquias, a vela da primeira comunhão, o diploma do primário, livro de peter pan, pião com fieira, bolas de gude e, sim, todos os títulos de livros nas lombadas enfileiradas nas prateleiras. O fio… o fio… que vem de dentro. Eu sempre puxo -para viver.

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