10:47Wilson Galvão do Rio Apa, adeus

Do Notícias do Dia, de Florianópolis

Morre, aos 91 anos, o escritor Wilson Galvão do Rio Apa, em Florianópolis

Aos 91 anos, morreu na madrugada de quarta-feira (07) o escritor Wilson Galvão do Rio Apa. Ele estava internado há três semanas no Hospital SOS Cárdio, em Florianópolis. Segundo o filho, o advogado Kim Rio Apa, o escritor teve problemas no coração e no pulmão. “Ele lutou muito como tudo o que fez na vida, mas não resistiu a complicação por vários problemas de saúde. Na verdade, ele descansou”, disse o filho.

Anarquista assumido, na arte e na vida, Rio Apa começou rompendo com a família aristocrática quando, após concluir o curso de direito no Paraná, foi ser esgrimista e jogar futebol profissional no Água Verde, clube de Curitiba onde permaneceu apenas um ano porque “me sentia um perna de pau”. Depois, já enfadado com a cidade grande, procurou o mar e empregou-se como trabalhador braçal num navio que fazia viagens ao Oriente. Virou marinheiro, conheceu 46 cidades e chegou a ficar um mês ‘perdido’ em Singapura. “Esse lugar se tornou alguma coisa especial para mim”, contou, em 2014, aos 89 anos.

Nas viagens, tomou contato com as culturas japonesa, coreana e hindu e exercitou as habilidades com o texto, como “jornalista tripulante”, fazendo mais de 50 reportagens com relatos de lugares e pessoas para “O Estado do Paraná”. A bordo, inquieto como sempre, lia Nietzsche e Schopenhauer, que ajudaram a moldar seus gostos e seu desapego das coisas materiais. Os livros vieram ao natural, e foram publicados por editoras de pequeno porte e por outras com o prestígio da Brasiliense e da José Olympio. São romances, poemas, contos, ensaios e peças de teatro que tornaram o autor uma referência sobretudo em São Paulo, onde nasceu, e no Paraná, onde passou as fases mais efervescentes de sua carreira.

O gosto pelo isolamento, pela distância dos ruídos da cidade, levou Rio Apa a morar em diferentes ilhas e a cruzar o Brasil de motorhome. A ilhota de Gererê, no litoral paranaense, foi uma de suas paradas, onde se amalgamou à natureza e suportou o único vizinho, “um contrabandista espanhol que matou os meus cachorros”. Contar com liberdade para escrever deu bons resultados, e ali ele gestou a tetralogia “O povo do mar e dos ventos antigos”. Depois, já casado e com dois filhos, se instalou na ilha das Cobras, na baía de Paranaguá, onde a editora José Olympio o encontrou para propor a edição de “A revolução dos homens”. O livro era uma crítica ao regime ditatorial, e Apa foi interrogado, embora tenha conseguido continuar no paraíso que escolhera para viver.

Depois de uma curta passagem pela ilha de Cotinga, também em Paranaguá, ele se transferiu para Antonina, onde se aproximou dos pescadores e do povo que sempre considerou mais digno de respeito que os moradores urbanos. Durante cinco anos, investiu no talento artístico desses nativos, até se mudar para Florianópolis, em meados dos anos 1970.

Confira a tragetória de Apa, contada pelo jornalista do ND e escritor Paulo Clóvis Schmitz:

Uma ideia sobre “Wilson Galvão do Rio Apa, adeus

  1. Célio Heitor Guimarães

    Grande figura. Esteve também no rádio, como produtor e foi autor teatral. E, se a memória não me falha, encontrou a mulher através de anúncio publicado no jornal.

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