15:51Uma bomba na Adutora do Guandu. É Jair Bolsonaro em ação! (2)

por Dirceu Pio

Das novas gerações, poucas pessoas sabem que o deputado Jair “Messias” Bolsonaro, do PSC, já foi protagonista de um “Caso Para-Sar” às avessas! Digo às avessas porque no legítimo Caso Para-Sar, ocorrido em 1968, o herói foi um paraquedista de elite das Forças Armadas, o capitão Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, e o vilão foi o brigadeiro João Paulo Burnier; e nesse caso invertido, acontecido em 1986, o vilão foi um paraquedista (Jair Messias Bolsonaro) e o herói, ou melhor, a heroína, foi a jornalista Cássia Maria, de Veja…

Heróis, nos dois casos, foram pessoas que tiveram a decência e a coragem de delatar os planos, diabólicos e sinistros, antes que fossem executados…

Para entender o “Caso Para-Sar”, é preciso voltar no tempo algumas décadas. Instaurada em 1964, a Ditadura Militar já era confrontada, menos de quatro anos depois, por uma série de movimentos, entre os quais a Frente Ampla, liderada pelo ex-governador do Rio, Carlos Lacerda, e pela grande capacidade mobilizadora da UNE- União Nacional dos Estudantes, que já em julho de 1968 conseguira organizar a famosa Passeata dos 100 Mil, no Rio de Janeiro.

Nas casernas, as manifestações e os protestos despertaram a ira da direita radical, pequena, mas ativa…

Eis que surge um brigadeiro – uma das mais altas patentes da Aeronáutica – com um plano para levar o regime a um endurecimento total e assim conter o avanço da “subversão”.

O plano tinha duas fases, uma primeira consistiria na explosão de várias bombas em pontos estratégicos (gasômetro, vias públicas, ajuntamento de pessoas, pois a lógica era “quanto mais gente morrer, melhor”)!

Na segunda fase, seriam eliminados (isso mesmo, assassinados!) políticos influentes como Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros… Havia uma lista de 40 políticos! O objetivo era um só: produzir pânico e consternação para justificar um truculento fechamento do regime.

E todos os atentados seriam atribuídos aos “comunistas”!

O plano era a sério, mas o que o seu autor, o brigadeiro João Paulo Burnier, já envolvido em casos anteriores de suprema insubordinação, não levou em conta é que no comando do Para-Sar – tropa de elite, à qual fora reservada a missão de executar o plano – havia um homem sensato e corajoso, Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, que não permitiu que seus homens operassem aquela insanidade!

O tempo demonstrou que o brigadeiro Burnier, além de insano, não era nada inteligente. Dali a poucos meses, ainda no governo claudicante do General Costa e Silva, é instaurado o Ato Institucional de número 5 (o famoso AI-5) e faz o país mergulhar no que é chamado de Anos de Chumbo, criando, sem apertar o gatilho uma só vez, o clima que Burnier tentava produzir com bombas e assassinatos…

MALUQUICE EM DOSE MENOR

Vamos chamar o episódio no qual se envolveu Jair “Messias” Bolsonaro de “Parasarzinho”, vai!

Os tempos eram bem outros! Tancredo Neves já estava morto e seu vice, o maranhense José Sarney, ocupava a Presidência da República na condição de primeiro Civil a governar o País depois da série de governos militares…

E o Ministro do Exército do governo Sarney era o general Leônidas Pires Gonçalves!

Pois bem, nosso vilão nessa época não passava de um discreto capitão do 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista do Exército…

O clima era efervescente nas casernas… O salário dos militares estava muito comprimido e a insatisfação se espalhava…

O capitão Messias Bolsonaro, que bobo nunca foi, percebeu a oportunidade de sair do anonimato: jogou a disciplina e a hierarquia militar na lata do lixo e escreveu um artigo para a revista Veja relatando o clima de insatisfação dos quarteis.

No artigo, começava por explicar que a evasão de cadetes das academias militares não era causada, ao contrário do que a imprensa informava, por homossexualismo, consumo de drogas ou falta de vocação para a carreira militar, e sim pelos baixos salários… E por aí foi… Teria sido até um bom artigo não fosse escrito por um oficial que tem por dever respeitar a disciplina e a Ética das Armas que servia.

O artigo causou grande estupefação: imaginem o que aconteceria ao país se todos os militares das três Armas fossem usar a mídia externa para relatar os seus problemas?

Mas o Messias Bolsonaro não se deu por satisfeito: em parceria com outro capitão do mesmo corpo de Paraquedistas, Fábio Passos, apresentou à repórter de Veja, Cássia Maria,  um plano para explodir quarteis e a Adutora do Guandu, no Rio de Janeiro.

Entregou à repórter inclusive um croqui que ele desenhara de próprio punho apontando os pontos da adutora onde as bombas explodiriam… Bolsonaro e seu parceiro da maluquice haviam selado um acordo de sigilo com a repórter… Também não contaram com o espírito de cidadania da moça que, civilizadamente, publicou todo o material que lhe fora entregue e assim fez abortar a maluquice…

O plano teve até nome: “Operação Beco sem Saída”. Seria posto em prática caso o Exército não reajustasse o salário da tropa…

O STM – Superior Tribunal Militar abriu inquérito para apurar ambos os casos… Pelo artigo em Veja, de autoria irrefutável, por ter “ferido a Ética e cometido transgressão grave”, Messias Bolsonaro levou 15 dias de prisão…

No caso da Operação Beco sem Saída, ambos os militares foram absolvidos, o que não impediu que os três coronéis que comandaram o inquérito afirmassem que Bolsonaro e Passos “mentiram durante todo o processo”…

O VAI E VEM DO MESSIAS

Os coronéis do Conselho de Justificação do STM parecem ter acertado em cheio ao classificar o hoje pré-candidato a presidente da República como “mentiroso”! Quem toma conhecimento de sua trajetória política vê um político sem coerência…Messias Bolsonaro se parece  com um daqueles parafusos feitos com material mole, sem têmpera – apertou, a rosca espana!

Em 1986, idealizou sim um plano para soltar bombas; apertado pelo STM, negou tudo e disse que iria explodir algumas espoletas!

Agora mesmo, sob ameaça de perder o mandato de deputado por ter exaltado a tortura, nega que a tenha exaltado!

Oportunista, sabe que seu ídolo no Brasil, o Coronel Brilhante Ustra, é parecido com o general chileno Augusto Pinochet! Ambos usaram os mesmos métodos para combater oposições…

Ao perceber, em 1986, que a imagem de Pinochet, dadas as atrocidades que cometia no Chile, estava mais suja que pau de galinheiro no Brasil e querendo atingir o Ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, declarou a Veja: “O Exército é uma vergonha! E o ministro Leônidas é um segundo Pinochet!”

Messias Bolsonaro tem também uma péssima interpretação do dado político! A efervescência nos quarteis seria suficiente para pressionar o governo de Sarney a fazer o que fez – aplicou 95% de aumento ao salário das três Armas…

O artigo em Veja e o plano terrorista de Messias Bolsonaro tiveram peso quase zero na decisão de governo! E o homem que se diz em condições de comandar o Brasil não soube enxergar isso – preferiu o caminho da violência ou da demagogia, não se sabe!

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