7:09‘Tudo começou com um pato’. E agora?

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por Célio Heitor Guimarães

Foram 68 anos de contínua convivência, o que não é pouca coisa. Diz a lenda que, em 1949, Cesar Civita, que fundara e tocava em Buenos Aires, na Argentina, a Editorial Abril e detinha os direitos de publicação dos personagens de Walt Disney, sugeriu ao irmão Victor que trocasse a Itália pelo Brasil e ali expandisse o negócio da família. Estabelecido em São Paulo, Victor funda, então, com o irmão, em maio de 1950, a Editora Primavera e publica uma revista em quadrinhos de origem italiana chamada Raio Vermelho, que não tem sucesso. Resolve, então, em julho do mesmo ano, rebatizar o empreendimento como Editora Abril e, valendo-se do material de Cesar, lança a sua primeira revista Disney, O Pato Donald. E aí tudo começou. Cesar retira-se da sociedade e a pequena editora – ocupando inicialmente apenas uma sala na Rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo, com um telefone e uma secretária – tornou-se um dos maiores conglomerados gráfico-editorial da América do Sul. Parafraseando Walt Disney, que dissera a célebre frase “Espero que nunca percamos de vista uma coisa: tudo começou com um rato”, Victor Civita repetiu-a, alterando apenas o final: “Tudo começou com um pato”.

Gerações de brasileiros cresceram convivendo com Donald, Mickey, Pateta, Pluto, Tio Patinhas, Vovó Donalda, Irmãos Metralhas, João Bafo-de-Onça e toda a turma animada dos estúdios Disney, graças a persistência de Victor Civita (e depois do filho Roberto). Houve época em que deram prejuízo. Em outra ocasião, os EUA deixaram de produzi-las e publicá-las, mas os Civita mantiveram-se firmes. Investiram na produção nacional, com Cláudio de Souza, Alberto Maduar, Jorge Kato, Waldyr Igayara de Souza, Ivan Saidenberg, Primaggio Mantovi, Renato Canini, Carlos Edgard Herrero, Luiz Podavin, Roberto Fukue, Haroldo Guimarães Neto, Fernando Bonini, Paulo Borges, Gustavo Machado, Euclides Miyaura, Carlos Mota e outros, dividindo-a com as produções italiana, dinamarquesa e holandesa, que continuaram ativas. No Brasil, a criação de quadrinhos Disney, além de intensa, incluiu novos personagens, como Morcego Vermelho e Biquinho, entre outros. Algumas histórias chegaram a ser publicadas inclusive nos Estados Unidos pela editora Gemstone.

Por tudo isso, o anunciado fim da parceria Abril-Disney continua sendo uma incógnita. Boatos corriam no mundo HQ desde abril, quando foi suspensa a publicação das coleções encadernadas “Biblioteca Don Rosa” e “Coleção Carl Barks”, que faziam parte de uma seleção histórica dos personagens da Disney. Segundo Ricardo Perez, responsável pelo departamento de assinaturas da Abril, tratava-se apenas de uma “revisão estratégica do grupo”. Outros começaram a pôr em dúvida a estabilidade financeira da editora.

Para José Alberto Lovetro (JAL), que preside a Associação dos Cartunistas do Brasil, não dá para separar a história da Abril dos quadrinhos Disney. “A editora começou com o gibi do Donald, que foi distribuído pessoalmente pelo Sr.Civita nas bancas da cidade. Não vejo outra editora publicando Disney. Acho que a Abril tem que dar a volta por cima e reinventar o mercado Disney no Brasil” – declarou.

Pessoalmente, ingressei no mundo dos quadrinhos com Donald e Mickey (que sempre achei um chato, certinho, reacionário, que ficava vermelho quando recebia um beijo de Minnie) e com o Pernalonga, Gaguinho, Frajola e Hortelino Trocaletra, que Adolfo Aizen, da Ebal, publicava na revista Mindinho. O Pato Donald era uma revista um pouco maior que o tamanho-padrão americano, tinha histórias completas e em continuação. Era, como todos os demais quadrinhos de antigamente, em preto-e-branco, com exceção das quatro primeiras e quatro últimas páginas, que eram impressas em cores.

Ainda não há notícia sobre quem poderá assumir as publicações Disney no Brasil, mas especula-se que a Panini talvez venha a fazê-lo. É que a editora italiana já acolheu várias publicações que foram da Abril, como as revistas da Marvel e da DC Comics.

O que já se sabe é que a terceira geração dos Civita está perdendo ou sendo obrigada a perder de vista a pregação do velho Victor. E se tudo começou com um pato, pode vir abaixo com o adeus dele.

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