6:45Três anos sem Rubem Alves

por Célio Heitor Guimarães 

Faz três anos que Rubem Alves nos deixou. Foi em julho de 2014. E a ausência da sua presença, como ele definia a saudade, continua doendo em nós, seus amigos, fãs, leitores e discípulos. Temos Rubem vivo em mais de uma centena de livros, onde ele se faz presente por inteiro, com suas ideias, suas considerações, suas parábolas, suas metáforas e, sobretudo, suas lições de vida. Mas a sua falta física é insuprível. E dói na alma de todos aqueles que aprenderam com ele que “os olhos que a saudade encantou ficam dotados de estranhos poderes mágicos: eles veem as ausências, o que não está lá, mas o coração deseja”.

Só descobri Rubem Alves tardiamente, em 2004. “Que pena! Quanto tempo perdido!”, como diria o próprio. Eu já ouvira falar dele, é verdade, mas, tolo e relapso, não me preocupara em conhecê-lo mais de perto, saber o que dizia e o que pensava. Já o vira nas prateleiras da Livraria Saraiva, em uma bem sortida coleção de títulos. Mas – maldita arrogância! – continuei a ignorá-lo solenemente. O azar foi meu.

Uma noite, finalmente, a televisão apresentou-me Rubem Alves. Foi no “Roda Viva”, da Cultura de São Paulo, conduzida pelo Paulo Markum. Lá estava o Rubem no centro da roda, alegre, simpático e faceiro, falando sobre os temas que tanto adorava: educação, crianças, poesia, literatura e vida. Foi amor à primeira vista. Depois, vi-o novamente no “Aqui Entre Nós”, da nossa TV Paraná Educativa, desfilando a simplicidade dos sábios, fazendo amigos e conquistando admiradores. Mas aí eu já tomara vergonha na cara e havia me tornado seu leitor e admirador. Hoje, posso me vangloriar de haver lido praticamente toda a sua extensa bibliografia, que continuo lendo e relendo constantemente. Devagar, sem nenhuma pressa, como aconselhava o próprio autor, entremeando a leitura com reflexões, para não atropelar o prazer e afetar o sabor, na linha de ensinamento de Schopenhauer – sempre citado por Rubem –, segundo o qual a leitura só é boa quando bovina, isto é, quando leva à ruminação. E a leitura de Rubem Alves faz bem à saúde, traz felicidade e sabedoria, rejuvenesce.

Escrevi alguns textos com base nos ensinamentos de Rubem, publicados no saudoso O Estado do Paraná, de Mussa José Assis. Esses escritos geraram dois livretos caseiros (“O homem que tem um caso de amor com a vida” – 2004 e “Como diz Rubem Alves” – 2008), artesanalmente montados, de reduzidíssima tiragem, para distribuição em circuito fechado. Fi-los chegar ao mestre. Agradeceu-me de forma carinhosa:

Pelo primeiro: “Célio, meu querido amigo que não conheço. Mas você me conhece muito bem. A partir do título: caso de amor com a vida… Depois, a seleção, pedaços de mim… Foi uma surpresa maravilhosa. Mais do que o livro, saber que há alguém que é amigo e irmão, sem que nunca nos tenhamos encontrado… Isso é coisa rara. Obrigado. Ao final da fala em Curitiba, perguntei ao auditório se um tal de Célio, se você estava presente. Ninguém se manifestou. Eu queria abraçá-lo. Fica para a próxima vez. Rubem”.

Pelo segundo: “Célio, querido amigo: fiquei emocionado ao sentir o carinho e a inteligência com que você me fez presente nas suas crônicas. Isso é coisa muito rara. Você me chama de grande mestre. Não sou nada disso. Sou um menino amedrontado e confuso diante do grande mistério que se aproxima. Ainda bem que tenho amigos… Minha escritura é o jeito que eu tenho de brincar. Quem sabe encontraremos um jeito de nos encontrarmos. Um abraço do Rubem Alves”.

Encontramo-nos duas vezes. A primeira, aqui em Curitiba, na Fnac do Barigui, onde Rubem teve um encontro com o prof. Samuel Lago e eu lá fui para receber o abraço que ele ficara me devendo. A segunda, por acaso – se o acaso existisse – na Casa do Chocolate, na bucólica Penedo fluminense, ao cair da tarde. Abraçamo-nos pela segunda vez.

Em meados de julho de 2014, soube que Rubem estava internado na UTI do Centro Médico de Campinas, SP, com um quadro de pneumonia e insuficiência respiratória. Aqui neste espaço, procurei dar-lhe força. Disse-lhe que ele precisava resistir, recuperar-se, que havia ainda histórias por contar, do jeito que só ele tinha. Aleguei que a sua sonata de vida ainda estava incompleta. E, por isso, era preciso resistir, não permitindo que a morte chegasse enquanto ainda havia vida para viver.

Rubem fez o que pode. Até a noite do dia 19 daquele julho, quando a força para lutar pela vida lhe faltou. Mas viveu até o fim com elegância e sensibilidade, como desejava.

Outro desejo realizado: depois de sua partida, as coisas que ele tanto amou – como a poesia, a música, os seus escritos, os jardins, um raio de sol, a gota de orvalho, o ipê florido, o crepúsculo, as borboletas, a vida na roça, a Serra da Mantiqueira, os riachos de águas transparentes, o voo do beija-flor… – transformaram-se em sacramentos: sinais da sua ausência. E ele estará sempre nelas.

Obrigado, mestre Rubem. Obrigado por haver existido e me acolhido como amigo.

celiorubem

Rubem (à direita) e o acima assinado: o mestre e o aprendiz

Uma ideia sobre “Três anos sem Rubem Alves

  1. Ivan Schmidt

    Admirador de Rubem Alves há muitos anos, só não tive o prazer de conhece-lo pessoalmente e nem tirar uma foto a seu lado, como o ilustre Celio Heitor Guimarães. Também escrevi artigos inspirados na sabedoria de Rubem n’O Estado do Paraná, quando Curitiba tinha jornais de verdade.
    Pois é, caríssimo Celio, agora quem sabe você se decide a reunir tudo o que escreveu sobre Rubem Alves num só volume. Além da família, seus leitores cativos (e muitos outros) vão agradecer…
    Grande abraço.

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