7:35Surpresa! O Canal 6 continua no ar! E só

por Célio Heitor Guimarães 

Para quem não sabe, esclareço: continua no ar quer dizer ainda existe e está funcionando; Canal 6 é o canal de sintonia da velha TV Paraná, a segunda emissora de TV de Curitiba e do Estado do Paraná, nascida nos idos de 1960.

Como não integra a grade de canais a cabo, não transmite em alta definição e ninguém mais fala dele, imaginei que o antigo Seis havia encerrado as suas atividades. Ledo engano. Ele continua emitindo o seu sinal, alicerçado em uma programação composta fundamentalmente de cultos evangélicos. Mas, – o que surpreende – ainda respira. Continua em poder da família Martinez, denominando-se CNT (Central Nacional de Televisão), com afiliadas, segundo consta, no Rio de Janeiro, Londrina, Salvador e Caxias do Sul (RS). Se tem telespectadores, é uma incógnita. O que se sabe é que já esteve à venda e enfrenta, desde 2015, problemas com o Ministério das Comunicações, exatamente por haver arrendado quase toda a sua programação à Igreja Universal do Reino de Deus, o que é vedado pela legislação.

No entanto, é preciso que se diga que, apesar disso, a cinquentenária emissora tem tradição. Por muito pouco não foi a televisora pioneira do Paraná. Chegou menos de dois meses depois da TV Paranaense, Canal 12, hoje RPC, em 19 de dezembro de 1960, e fez história.

Amparada na então poderosa cadeia dos Diários e Emissoras Associados, espalhados pelo Brasil, e uma equipe de denodados desbravadores, quase toda formada no rádio e no teatro, que aprendeu a fazer televisão fazendo, o Canal 6 conquistou, desde logo, a preferência popular, consagrando programas de enorme sucesso e nomes lembrados com saudade até hoje. A primeira grande atração foi certamente o “Cirquinho Canal 6”, produzido e apresentado pela família Queirolo, descendente do inesquecível palhaço Chic-Chic. Seguiram-se “Tevelândia”, de Clemente Chen, o “Clube do Curumim”, os musicais com Os Calouros do Ritmo, a reportagem social do colunista Dino Almeida, as pregações do padre Emil Caluf, os noticiosos com Luiz Geraldo Mazza, Roberto Novaes, Ayrton Baptista, Hélio Polito, Sérgio Luiz e Milton Müller, os teleteatros com Maurício Távora e Jane Martins, Nicette Bruno e Paulo Goulart, Sinval Martins e Paulo de Avelar, os comerciais com William Sade, Linda Saparolli, Adalgiza Portugal, J.J. de Arruda Neto, Marly Terezinha, Regina Kolberg e Eva Tymowicz, as “traquitanas” de Osni Bermudes, a direção de TV do mesmo Osni e do futuro cineasta Sylvio Back, as jornadas esportivas com Vinícius Coelho, Rafael Iatauro e Sylvio Ronald, a cenografia de Juarez Machado, a sonoplastia de Eulâmpio Viana Filho  e Didier Deslandes, os seriados como “Papai Sabe Tudo”, “I Love Lucy”, “Patrulha Rodoviária”, “Rin Tin Tin”, “Rota 66”, “Viagem ao Fundo do Mar”, “Bat Masterson”, “O Fugitivo”, “Bonanza”, “Dom Pixote”, “Os Flintstones”, “Ben Casey”… Tudo sob a batuta do experiente Aluízio Finzetto.

A grande campeã de audiência da TV Paraná, no entanto, foi uma produção local, ao vivo, estrelada por Ary Fontoura, ator que mais tarde faria enorme sucesso nas novelas da Rede Globo: “Tele-Show CCI”, onde Ary vivia o impagável “Dr. Pomposo Ribeiro”, candidato a cargo eletivo, tendo por companheiro inseparável o capanga “Bide”, encarnado pela atriz Odelair Rodrigues. O ibope chegava a mais de 90%, fato jamais repetido na história da televisão paranaense. E os bordões criados pelo candidato “Pomposo” eram repetidos em toda parte: “Voceis tão me vendo ne mim aí?”  e  “Num  tem  pobrema”.  Um fato curioso: “Pomposo Ribeiro” recebeu 21 mil votos para deputado estadual nas eleições de 1962.

Outro grande trunfo do Canal 6 foi o seu elenco teleteatral. Sob a direção de Glauco Sá Brito e Roberto Menghini, brilharam no vídeo astros e estrelas como Joel de Oliveira, Odelair, Dercy D’Avila, Aristeu Berger, Claudete Baroni, Sileide Costa, Ayrton Müller, Rosa Azevedo, Aracy Pedroso, Lala Schneider, Sansores França, Maria Aparecida, Edson D’Avila, Clóvis D’Aquino, Alceu Honório, Rogério Dellê, Irene Moraes, Lourdes Bergmann, Luiz Hilário, Daniel Santos e Yara Villar. Uma brava equipe capaz de produzir, encenar e mandar para o vídeo a versão local de “O Direito de Nascer”, dramalhão do cubano Félix Caignet, que antes fizera sucesso no rádio, em folhetins e mesmo na TV Tupi paulista. Em Curitiba, estreou na primeira segunda-feira (dia 3) de 1966. Montada com esmero e carinho, a versão curitibana fez bonito e nada ficou a dever à realização da Tupi. Ganhou aplausos nacionais.

Mesmo quando já mudara de dono e virara Rede OM de Comunicação, a TV Paraná ainda foi capaz de se tornar a primeira cabeça de rede a gerar da capital paranaense um telejornal de alcance nacional, o “Fala, Brasil”, além de haver tirado da platinada Globo o mais famoso narrador esportivo da televisão brasileira, Galvão Bueno.

Por isso tudo, é profundamente lamentável a atual situação de penúria e agonia da outrora fulgurante TV Paraná, Canal 6, de Curitiba.

2 ideias sobre “Surpresa! O Canal 6 continua no ar! E só

  1. Uncle Joe 100

    Mas à família do batatinha Martinez não restou outra saída, depois da saída do grande Cadeia o cinquentenário Canal 6 foi para o buraco. Lembro-me bem desta época, quando só tinhamos dois canais, o 6 e o 12. Dias atrás alguém me olhou espantado quando falei do Canal 12, o cara me olhou com uma cara como se estivesse falando de ETs ou coisa parecida. Aí contei para o espantado que quando a televisão começou em Curitiba ela era em preto e branco e conhecíamos os canais pelo número, hoje é pelo nome dos donos. As coisas mudaram, para pior.

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