7:23Socó, adeus

Tinha um jeito especial de empunhar a máquina fotográfica, instrumento de trabalho. Na verdade, a lente, por cima, com a mão esquerda, para o foco manual, ao contrário da maioria, porque era naquele tempo, que foi ontem, é hoje, será sempre. A notícia de que foi embora na madrugada do domingo só chegou há pouco, porque desligar é preciso de vez em quando – para não enlouquecer. Na lembrança o nome Socó é eterno, mas o melhor é que fica o mistério de como surgiu. Ave rara ele era, o Lucimar do Carmo. Tanto que o irmão mais novo, Antonio Costa, herdou o apelido, claro que no diminutivo Socozinho, e se revelou um craque da fotografia. O Socozão era craque em outro departamento, além de fazer seu trabalho com dedicação. Estava mais para boleiro a entrar em campo a fim de registrar nas páginas da grande Tribuna do Paraná a história do futebol estadual construída dentro dos estádios de Curitiba. Antes do início da partida ele dirigia um espetáculo ao comandar os jogadores nas fotos posadas, levando-os de um canto para outro a fim de ter o melhor fundo, ou seja, onde estava a torcida, o motivo principal de tudo. Me perguntava o que fazia com ela. Imagino que os presenteava enquanto conversavam longe dos gramados e concentrações sobre o que interessa na vida – o que certamente não era política. E ele andava meio adernado com aquela bolsa onde, um dia, na alça, vi pendurados alguns estojos de plástico de filme fotográfico. Demorou alguns jogos para perguntar porque os colocava ali daquele jeito. Ele perguntou se eu queria um gole. Claro que queria, estávamos no inverno e a talagada de conhaque da embalagem “especial”, mais à mão, foi perfeito. No levantamento das fotos do Socó, feito pelo repórter André Pugliesi para o blog Memória F.C., da Gazeta do Povo, e tendo como “gancho” os 4 a 4 lendários do Ziquita, vi também meu compadre José Eugênio de Souza, fotógrafo da revista Placar que já se foi há algum tempo. Naquele jogo os deuses do futebol também me levaram para dentro de campo, onde vi o Sobrenatural de Almeida descer na Baixada. Olhei as imagens e veio aquele misto de tristeza pelo fato de o Lucimar “Socó” do Carmo ter partido tão jovem e também porque fazia muito tempo que não o via, já que a vida é assim mesmo, segue caminhos muitas vezes bem distintos e distantes. Mas, ao mesmo tempo, feliz por ter conhecido, convivido, admirado e, mais do que tudo, de termos, sem ser muito próximos (do irmão, fui mais, mesmo porque cheguei a ser vizinho dele no bairro Abranches), participado de um tempo que é isso, o que ele registrou para deixar saudade. Amém.

Uma ideia sobre “Socó, adeus

  1. Bittencourt

    Zé Beto: quem é que não tem uma história ou potoca prá contar sobre o Socó? Seja na redação, no campo ou nas pescarias? Sabe, esse mundo tá ficando mais triste…

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