6:36Setenta anos de malandragem

O setentão Zé Carioca, dos Estúdios Disney

por Célio Heitor Guimarães

Ele era para ter sido um personagem secundário, com vida transitória, como parte da política de boa vizinhança do governo norte-americano com os países da América Latina, durante a Segunda Guerra Mundial. Fora criado no início da década de 1940, nos estúdios de Walt Disney, para formar um trio com o ianque Pato Donald e com o galo mexicano Panchito na produção animada “Alô, Amigos!”, de 1942 (havia um quarto personagem, o burrico argentino Gauchinho Voador, com menor participação).

A ideia surgira quando de uma viagem de Walt Disney e sua equipe de desenhistas ao Rio de Janeiro. Queriam um personagem que representasse o Brasil – e nada melhor do que um papagaio antropomórfico. Nascia ali José Carioca, morador típico do subúrbio, bem falante, divertido, malandro e preguiçoso.

Claro que José virou Zé e logo ganhou vida própria. Ainda participaria de outro filme, também destinado a estreitar relações com os latinos: “Os Três Cavaleiros”, cuja parte brasileira foi intitulada “Você já foi à Bahia?” e misturou desenhos com artistas de carne e osso, como Aurora Miranda, irmã da cantora Carmen.

Há quem diga que Zé foi inspirado em um passista da Mangueira. Mas a verdade é que o primeiro esboço do personagem, de gravata borboleta, chapéu-palheta na cabeça, guarda-chuva na mão e um charuto na boca, foi feito pelo desenhista brasileiro J. Carlos; o protótipo foi, depois, finalizado pela equipe americana.

Segundo o pesquisador Celbi Vagner Pegoraro, Walt Disney ficou encantado com a obra de J. Carlos. O primeiro encontro do ilustrador brasileiro com os artistas de Disney teria ocorrido numa exposição na Associação Brasileira de Imprensa, onde havia obras de diversos brasileiros, mas os desenhos de J. Carlos retratavam a fauna brasileira, incluindo aí o papagaio. Seus traços chamaram tanta atenção que dois fotógrafos da equipe de Disney gastaram um bom tempo registrando os quadros. Disney, então, fez pessoalmente um convite para que J. Carlos trabalhasse em seu estúdio, mas o brasileiro recusou, presenteando Disney com um desenho de papagaio. Que viria a ser o nosso Zé.

Pouco antes do lançamento de “Alô, Amigos!” no cinema, Zé Carioca apareceu em algumas tiras de quadrinhos nos jornais americanos. O autor foi Paul Murry, que criou a periquita Rosinha, namorada do Zé. Em julho de 1950, ele dividiu com Donald a capa do nº 1 da revista do pato, que marcou o início da Editora Abril no mercado brasileiro. O desenho foi do argentino Luis Destruet.

Revista própria, porém, Zé somente foi ganhar em 1961 e nada de n° 1: a estreia aconteceu no n° 479 de “O Pato Donald”, com quem passou a alternar-se semanalmente. Por isso, não adianta os colecionadores garimparem o nº 1 de “Zé Carioca” – ele nunca existiu.

O pior é que, como não havia histórias a ser publicadas, já que o personagem deixara de ser produzido pelos Estúdios Walt Disney, a Abril lançou mão de uma prática lastimável: passou a adaptar aventuras de Donald e de Mickey, substituindo o pato e o rato pelo papagaio. Aí, ele começou a fazer dupla com Pateta e chegou a ter sobrinhos (Zico e Zeca) para ocupar os lugares de Zezinho, Huguinho e Luizinho, sobrinhos de Donald.

Felizmente, em 1972, com a estruturação de um estúdio próprio, a Abril libertou Zé Carioca das tristes adaptações e ele voltou, enfim, a viver histórias ambientadas no Brasil, com sabor brasileiro. E sofreu mudanças de visual: deixou o paletó, gravata, palheta, charuto e guarda-chuva para passar a envergar boné, tênis e camisetas estampadas.

No final da década de 90, com a franca decadência dos quadrinhos, a Abril encerrou as atividades de seu estúdio Disney e parou de produzir histórias do papagaio de Vila Xurupita. A derradeira aventura foi publicada em 2001: “Só com Magia”, com roteiro de Rafles Ramos. Outros roteiristas do Zé, de 1972 aos anos 90, foram Ivan Saidenberg, Julio de Andrade, Artur Faria Jr., Gérson Teixeira, Genival de Souza e João Batista Queiroz. Os número de desenhistas supera duas dezenas, com destaque para Jorge Kato, Waldyr Igayara, Izomar Camargo, Carlos Herrero, Renato Canini, Roberto Fukue, Luiz Padavin, Gustavo Machado, Paulo Borges, Átila de Carvalho, Fernando Ventura e Carlos Mota.

Como curiosidade, o gaúcho Canini confessa que durante seis anos desenhou as aventuras de Zé Carioca sem ao menos conhecer o Rio de Janeiro.

Atualmente, as revistinhas trazem apenas republicações.

Mas se no Brasil a produção está parada, o mesmo não acontece –surpreendentemente – na Holanda!… Sim, na Holanda o nosso Zé continua fazendo sucesso e sendo regularmente publicado. Caso único no mundo.

Este ano, Zé Carioca, tal qual Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil, está completando 70 anos. Para comemorar a data a Abril preparou uma série especial de dois volumes, com 300 páginas cada, o primeiro dos quais já está nas bancas. Em destaque as tiras completas originalmente publicadas na década de 1940, nos jornais dos EUA. E, em especial, duas aventuras inéditas, criadas no Brasil especialmente para o evento, depois de muitos anos sem produção.

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