5:49‘Sempre… o mesmo vento’

por Célio Heitor Guimarães

Eu não conhecia, nem de nome, Zeila Ribas Vianna – culpa minha, é claro –, uma paranaense para quem “ler e escrever é quase tão vital quanto respirar”. Descobri-a em uma citação quando procurava dados sobre a história dos Guimarães no Paraná por pura curiosidade. Lá estava “Zelia Ribas Vianna, Sempre… o mesmo vento, Kairós Edições, Curitiba, 2014). O título do livro já era um achado. Sempre… o mesmo vento… Simples e genial. Saí em busca da obra. Como era de 2014, ninguém mais tinha. Só a filial das Livrarias Curitiba, do Shopping Palladium, lá nos cafundós da Kennedy com a República Argentina, onde dois volumes ainda sobreviviam em meio à mediocridade editorial hoje reinante.

Ainda no estacionamento do shopping passei os olhos no primeiro parágrafo do Capítulo I: “Na campina batida pelo vento, faltava pouco para o dia despontar. O frio era intenso e na madrugada, campo e céu se fundiam no horizonte a perder de vista. Sob a luz difusa, a vasta imensidão da paisagem tinha uma mesma tonalidade opalescente e os contornos mal definidos causavam uma sensação de irrealidade. Apenas as manchas escuras dos capões nas baixadas e as sombras vagas dos altos itaimbés podiam ser percebidas, indicando o rumo ao viajante solitário que avançava penosamente contra o vento”.

Érico puro. Com uma vantagem adicional sobre O Tempo e o Vento, do grande Érico: o cenário era o Paraná, os Campos Gerais do Paraná, definidos por outra historiadora desta terra, Vera Maria Biscaia Vianna Baptista (em Curitibanos dos Campos Gerais, editora Mirabília, 2002), como um “admirável gramado de mais de vinte mil quilômetros quadrados [que] se estende para o norte até encontrar as florestas da Bacia do Rio Itararé e Paranapanema, e, para o sul, as florestas do rio Iguaçu. A oeste, encosta nos campos de Guarapuava e na Serra da Boa Esperança, e sua porção oriental faz divisa com a Serra de Luís do Purunã, com predomínio do Rio Tibagi”. Aos poucos o panorama foi se ampliando, com a anexação dos campos de Guarapuava e com os campos de Palmas.

Nesse cenário do século XIX, dominado pelo vento, sempre o mesmo vento, Zeila Ribas Vianna narra a saga de sua família, nascida da união dos Teixeira de Azevedo com os Gonçalves Guimarães. E ao contá-la, conta a história do Paraná, de pioneiros determinados, de visão e coragem, tropeiros e sertanistas que fizeram o caminho caminhando e semearam a civilização paranaense com muito suor, sangue e idealismo. Nada disso, porém, teria sido possível sem a presença firme e decisiva, na retaguarda, de mulheres de fibra, resignadas com o que a vida lhes reservara, mas as verdadeiras heroínas da jornada, porto seguro dos viajantes, nas idas e vindas de maridos ausentes, e que jamais se limitaram a ser meras parideiras, operadoras da roca, orientadoras domésticas, e educadoras de filhos.  Maria Magdalena, Francisca, a “Sinhara do Carambeí”; Maria Clara, Maria do Nascimento, Anna Rosa, as negras Macé, Zefina, Inda, Coralina, Celeste, Josefa…

Uma viagem da Fazenda Santa Cruz, morada do clã Gonçalves Guimarães, localizada entre as vilas de Sant’Anna do Pitangui (hoje, Ponta Grossa) e Palmeira, e a sede da província, a então pequena Vila de N. S. da Luz dos Pinhais, onde a família mantinha abrigo na Rua Fechada (hoje, José Bonifácio), a cerca de quarenta léguas, aproximadamente duzentos quilômetros, costumava durar, em período normal, uns doze dias. As paradas eram feitas em fazendas próximas à estrada (estrada?! Não passavam de trilhas) ou em pontos de pouso de tropeiros, onde havia alguma segurança.

Zeila Ribas Vianna é uma escritora de mão-cheia. Com um estilo leve, solto e envolvente, conquista o leitor desde logo, em capítulos curtos e bem estruturados. Na verdade, Sempre… o mesmo vento não é um romance histórico. É o que se chama de um “quase romance”, pois a autora usa personagens e fatos reais, que existiram e aconteceram, oferecendo-lhes os pormenores. Quando lhe perguntam se determinado episódio é verdadeiro – conta Etelvina Maria de Castro Trindade, encarregada da apresentação do livro –, Zeila responde apenas com divertida sinceridade: “Não sei. Imaginei que seria assim”. Ou simplesmente gostaria de tivesse sido assim. E essa mistura da realidade com a ficção resulta numa fascinante narrativa.

Sempre… o mesmo vento foi uma das melhores leituras que fiz neste início de ano. É coisa nossa, de gente nossa. Devia ser obrigatória em sala de aula, no estudo da formação do Paraná, tão desprezada quanto mal ensinada. Nenhuma geração poderá ter futuro, se não conhecer o passado – fase feita, mas absolutamente verdadeira.

Obrigado, Zeila Ribas Vianna. A cultura paranaense quer ler seus escritos e ouvi-la mais vezes, ainda que a tranquilidade da sua Guaratuba lhe causem uma preguiça danada de subir a serra, imagino eu.

P.S. – Zeila Ribas Vianna é bisneta do coronel Firmino Teixeira Batista, o popular “Coronel Vivida”, que deu nome a município do sudoeste paranaense.

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