5:12Quando o macaco e Júpiter se encontram

Por Ivan Schmidt

A edição de 2 de março do caderno EU&Fim de Semana do jornal Valor Econômico, a meu juízo e, de longe, a melhor publicação de cultura e entretenimento da imprensa brasileira, estampou com chamada na capa a ótima reportagem (Depois da revolução), com base nos 50 anos decorridos entre 1968 (o ano que não terminou) e 2018.

O enfoque principal é a revolução estudantil na França, especialmente em Paris, quando o presidente da nação era o general Charles De Gaulle (1890-1976) e o ministro da Cultura André Malraux (1901-1976), no final de 1967, festejando a conclusão da arrojada obra de limpeza das fachadas do Panteão, Arco do Triunfo e da Igreja da Madeleine, que tornaram a cidade ainda mais bela.

O presidente havia feito um discurso à população no último dia do ano, afirmando que a nova etapa seria cumprida com serenidade. A economia francesa ia muito bem e, assim sendo, não havia motivos para a menor preocupação.

Segundo Laura Greenhalgh, autora da reportagem, De Gaulle recheou o discurso com uma sucessão de frases eloquentes e otimistas, como a seguinte: “No meio de tantos países envolvidos por confusões, o nosso continua a dar um exemplo de ordem. Não temos inimigos”, motivando a jornalista a escrever 50 anos depois que o herói de guerra gaulês, cujos 78 anos estavam firmemente plantados sobre a principal cadeira de despachos do Palácio do Eliseu, “jamais poderia ter imaginado que não se tratava de uma cadeira, mas de um barril de pólvora”.

Nos Estados Unidos o presidente era Lyndon Johnson, que enfrentava sérios problemas na administração federal por causa da Guerra do Vietnã e seu elevado custo moral e financeiro, ao passo que em Praga, capital da antiga Tchecoslováquia, um grupo de alunos da universidade promoveu um protesto pela fraca iluminação e calefação precária dos alojamentos universitários que os impedia de estudar.

Laura acrescentou que, apesar da repressão, “o clima de insurreição foi crescendo, crescendo, a ponto de, em janeiro daquele 1968, um comunista reformador chamado Alexander Dubcek (1921-1992) chegar ao poder com a promessa de instalar entre os tchecos um ‘socialismo de face humana’”.

O ano que deveria marcar o início de um período conturbado do ponto de vista social, econômico e político em vários países, nos Estados Unidos, deu notável destaque ao pastor Martin Luther King (1919-1968), líder do movimento pelos direitos civis e dos protestos sem violência contra a desigualdade social e a guerra, fato que possibilitou a ascendência de grupos negros radicais. Foi também o ano de seu assassinato.

No Brasil, 20 anos depois o jornalista Zuenir Ventura lançaria o livro 1968 – O ano que não terminou, memorial das principais ocorrência do citado período e também uma tentativa de explicação a partir do ponto de vista de um observador brasileiro, do que se passou no referido ano.

Greenhalgh, entretanto, analisa as ocorrências registradas especialmente no mês de maio na cidade de Paris, com suas aparatosas manifestações e conflitos de rua e os inevitáveis desdobramentos ao longo do tempo até o final da segunda década do século 21.

Guerra Fria, revolução em Cuba, pílula anticoncepcional, liberação feminina e a abertura do debate sobre a sexualidade, o lançamento de foguetes para o espaço, foram algumas dessas muitas manifestações e novas realidades que povoaram o quotidiano dos seres humanos na maioria dos países.

O tempo cronológico equivalente a meio século “tem sido alvo de um verdadeiro pluralismo interpretativo da parte de pesquisadores, acadêmicos ou não. Livros, teses, dossiês, documentários, filmes e exposições surgiram para tentar elucidar por que, afinal, deu a louca no mundo naquele (ainda insuperável) 1968, Ano do Macaco no horóscopo chinês e de Júpiter na astrologia”.

A busca de respostas plausíveis tem sido infrutífera, diz ela, apesar das muitas tentativas para se compreender o fenômeno, dentre as quais a jornalista insere o colóquio reunindo grande elenco de acadêmicos a ser instalado nas próximas semanas no campus da Le Mans Université. O tema geral do encontro acadêmico é Maio de 68: Memórias, Representações, Traços e (Re)Interpretações.

Mal podemos esperar a repercussão midiática de um evento histórico e cultural do mais elevado nível historiográfico e político, que mesmo encoberto por uma pesada  sombra sobre o achamento de respostas elucidativas, libera a expectativa de que produzirá um balanço positivo.

Enquanto isso vale a pena acompanhar o relato pessoal do autor de 1968 — o Ano que não terminou, jornalista e escritor Zuenir Ventura, no livro Minhas histórias dos outros (Planeta, SP, 2005), em que narrou o momento da alteração de sua trajetória profissional, ou seja, quando assumiu a decisão de escrever o livro sobre o ano tido por sua significação histórica, como interminável. Zuenir havia trabalhado na Tribuna da Imprensa, onde se tornou amigo íntimo de Sebastião Lacerda, filho de Carlos Lacerda, a essa altura proprietário da Editora Nova Fronteira.

Certo dia de 1987, a mulher de Zuenir, a também jornalista Mary que conhecera na redação da Tribuna, sugeriu que o marido deveria escrever um livro para comemorar a passagem dos 20 anos de 1968, aliás, um tema bem conhecido por Zuenir, que em 1969 escrevera para a Editora Abril, com o auxílio de uma equipe uma série de doze fascículos, mais tarde publicados em livro pelos Civita, sob o título Os anos 60 – a década que mudou tudo.

Zuenir lembra que, mesmo assim, considerou a ideia inviável por falta de tempo e vontade: “Aleguei que era pouco provável, quase impossível que o Jornal do Brasil, onde eu era responsável pelo Caderno B e o Bespecial, me concedesse uma licença. Acontece que Marcos Sá Corrêa, editor do jornal, me concedeu. Então, não havia o que fazer, a não ser escrever o livro”.

O jornalista passou os dez meses seguintes entre o departamento de pesquisa do JB e a Biblioteca Nacional fuçando jornais velhos, “ou em campo, para entrevistar personagens da época. Mergulhei tanto naquele ano que às vezes, à distância, faço confusão entre 68 e 88, como se tivesse vivido os dois ao mesmo tempo”, relatou, sem negar a dúvida de que o livro faria sucesso. Felizmente Zuenir estava equivocado, pois 1968 tirou mais de 40 edições e, ainda, propiciou a escrita de outro livro publicado pelo autor do primeiro vinte anos depois – 1968 – O que fizemos de nós (2008), em que revisitou com riqueza de informações tanto os incidentes quanto os protagonistas e seus coadjuvantes de 40 anos antes.

No dia 5 de outubro de 1988, exatamente às 15h50, o deputado Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, proclamava: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo”, promulgando a Constituição e determinando o fim de longo período de arbitrariedades “introduzido na História do Brasil a partir de 1964, com cassações de mandatos, perseguições, prisões indiscriminadas, torturas e assassinatos, censura, banimento e exílio”, como diria Zuenir ao arriscar o vaticínio de que “um novo tempo se iniciava”.

Vinte anos antes, no dia 28 de março de 1968, o secundarista Edson Luiz de Lima Souto, de 18 anos, foi morto com um tiro no peito num confronto com a polícia, quando jantava ao lado de colegas no restaurante estudantil Calabouço, na área central do Rio de Janeiro. O corpo foi levado para a Assembleia Legislativa e lá velado até o dia seguinte. “Os velhos no poder, os jovens no caixão”, gritavam os estudantes que três meses depois desfilaram na célebre Passeata dos Cem Mil, no Rio, com o apoio de artistas, intelectuais, políticos e representantes de variados setores da sociedade, conforme descrição de Laura Greenhalgh.

Daí brotariam tantas outras manifestações de ambas as partes em conflito, a subversão e a repressão, sendo a ação do braço armado do Estado oficializado pelo Ato Institucional nº 5, promulgado em 13 de dezembro de 1968.

Para Zuenir Ventura, também citado na matéria do suplemento do jornal Valor Econômico, mesmo discordando de alguns pontos da longa análise de Laura é certo dizer que “a paixão e a ética tenham sido o maior legado deixado pela geração 68, por vezes tão p. louca, como se dizia na época. São valores em falta da política de hoje: a paixão, e aqui não confundir com a atual intolerância, com que aquela geração se entregou à defesa de uma causa e a ética com se comportou, mesmo quando errou. O melhor resultado dessa combinação está nos quatro movimentos sociais que ganharam força naquela época e continuam atuais: o feminista, o homossexual, o negro e o ecológico”.

Assim como no ambiente acadêmico francês, que se prepara para uma revisão histórica dos idos de março de 1968, em Paris, apelo semelhante aos historiógrafos brasileiros poderia resultar num documento abalizado sobre os 50 anos mais agitados da história contemporânea com a dominação militar, a redemocratização, o impedimento de dois presidentes civis, assim como o apogeu e declínio do lulopetismo.

Uma ideia sobre “Quando o macaco e Júpiter se encontram

  1. Sergio Silvestre

    Não tem declínio p nenhuma,o que está acontecendo é uma caçada das irmandades em cima do PT,que hoje é o partido mais lembrado e que tem no seu ex presidente mais da metade dos brasileiros querendo que ele volte.
    E se for rever a história ,vamos ver que aqueles que hoje são inimigos ferrenhos,eram os mesmos que tomavam vinhos franceses no exílio enquanto a Dilma ,Dirceu e o Genoíno eram caçados que nem bichos ,presos e torturados.
    Agora a nação está os recompensando,mesmo sem provas nenhuma pondo fim nas suas carreiras politicas,e os mesmos elitizados,que voltaram da Europa belos e formosos estão ai roubando e dando o Pais sem que a justiça cúmplice os molestem.

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