14:20Por dentro e por fora de Miami

Do correspondente internacional, atendendo a pedido

Você me impõe verdadeira tortura ao pedir que escreva sobre Miami. Primeiro, porque não gosto da cidade, do calor, do clima e da gente. Segundo, porque não sei o que é Miami. Mas numa coisa dou o braço a torcer: Miami é um monumento à capacidade norte-americana de domar a natureza. Vamos lá, por partes.

Acho a cidade feia em termos de arquitetura: nos bairros ricos, casas de estilo colonial do dinheiro velho convivem com a arquitetura moderníssima do dinheiro novo – de onde veio grande parte, dou a pista: América Latina, Brasil incluso. Nos bairros não ricos, que não chamo de rigorosamente pobres, a arquitetura das casas pequenas, cores pastel, tristes, quadradas, telhados horizontais, em frente os carrões bebedores de gasolina – ali vive a classe que trabalha pesado, no geral descendentes de cubanos e imigrantes latinos, boa parte os ilegais que o futuro presidente quer despachar.

Calor insuportável, mesmo no inverno, que tem dois dias de temperatura de primavera em Curitiba. A gente só se sente bem indoors, dentro de casa, do carro, das lojas, shoppings e restaurantes, no conforto do ar condicionado elevado à máxima potência – dia e noite, sem parar. Brasileiro de consciência ambiental só pensa no consumo de energia e nos estragos à camada de ozônio. No entanto, isto não é privilégio nem defeito de Miami, mas do mundo em geral e dos EUA em particular, que se lixam para o ambiente. Falando em ambiente, não se separa nem se recicla o lixo por aqui. Na frente de um shopping de periferia desfrutei o espetáculo da montanha de lixo despejado pela coleta pública. Araucária me vem à lembrança.

O povo de Miami é preponderantemente latino-americano. Daí a algaravia do espanhol de som maciçamente cubano, algumas palavras em inglês. Sim, há norte-americanos de extração WASP (brancos, anglo-saxões e protestantes), mas estes estão insulados, são vistos mas não fazem grande diferença na vida, nos negócios e na política de Miami. Os brasileiros chegam segundo se diz a quase 300 mil por aqui. Sempre se cruza com um anônimo em trabalho braçal, em bares e em restaurantes. Tem os profissionais que fazem a ponte com os negócios do Brasil. E o que sejam estes negócios, me calo, porque não entendo dos negócios do Brasil. Agora aumenta aquela classe média que despreza o Brasil e migra para fugir do destino trágico do atraso que os políticos nos impõe. Dói ver como falam do Brasil, de onde trazem sua fortuna, sem conseguir limpar o mutt complex, o complexo de vira-lata. Ah, sim, quando conseguem, trazem ou empregam babás, aquelas que seguem dois passos atrás, empurrando o carrinho do bebê, roupas brancas tipo pedicure no intervalo do almoço.

Nem tudo é ruim. Tem o sol e a luz. As praias são bonitas. O que realmente fascina é a água, de consumo grátis e ilimitado aos residentes na cidade. E aqui entra o aspecto monumental do capitalismo do início do século XX, quando os investidores imobiliários fizeram como os venezianos na antiguidade: criaram um território onde era o banhado, os chamados glades, grande parte preservados como santuário da fauna e flora nativas. Um território imenso ainda não completamente explorado, com marinas para os que têm barcos na porta de casa – até remediados os têm – e imensos canais que conduzem ao mar. O que me falta em Miami? Esquinas, o mesmo que falta em Brasília, povo perambulando pelas ruas: o calor e o desinteresse do governo pelo transporte coletivo estimula exponencialmente o transporte individual, de veículos particulares, para os quais a ampliação de estradas e viadutos é atividade constante, interminável, pelo menos desde que frequento a cidade, nos últimos quinze anos.

Miami, não se pode deixar de falar, é o paraíso dos aposentados norte-americanos pela amenidade do clima. E o paraíso dos consumistas brasileiros, pela amenidade, oportunidade, variedade, preço e ofertas nas compras – na razão direta e exponencial do oposto no Brasil, sempre toureando os dólares e a inflação. As lojas, como a de roupas infantis que visitei na semana, já têm anúncios nas três línguas, inglês, espanhol e português-brasileiro. Um voo de volta ao Brasil nos dias de hoje tem tantos bonecos cretinos da Disney quanto carrinhos de bebê, aqui mais baratos e mais sofisticados em relação aos brasileiros, verdadeiro item esnobe entre as mães tapuias.

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