7:49Podridão política que gerou Cunha está viva e voa alto

por Mario Sergio Conti

O cavalheiro de Maceió alertou: “Você precisa conhecer um amigo meu lá do Rio. Ele sabe tudo, manda e desmanda na Telerj”. O guapo alagoano era Paulo Cesar Farias. O carioca que manjava tudo, Eduardo Cunha. Corria o ano de outro impeachment, 1992.

PC Farias deu a ficha do amigo depois de almoçar codornas, na sua casa paulista. Economista, fora um arrecadador eficaz e discreto na campanha de Collor. Chamado a ocupar um cargo subalterno na equipe de Zélia, preferira se assenhorar da telefonia fluminense. “É um ás”, avisou.

Mas a conversa com Cunha foi um caso de tédio à primeira vista. Como Collor caía em câmera lenta, o sabe-tudo engabelava com a cara dura de quem joga pôquer: “Paulo Cesar não me nomeou”. A política o aborrecia quase tanto quanto a economia. Não ofereceu café nem água.

Mais de 20 anos depois, outra entrevista. Apesar da gravata Charvet (que Walter Moreira Salles lançou aqui, imitando de Gaulle e Churchill), Cunha continuava amarfanhado, oco, enfadonho. Tomou água, mas teimou que PC não o indicara. Cumpriu-se, porém, a praga alagoana: virara um ás.

Cunha logo notou que não tinha chance como economista. A chefia do Ministério da Fazenda, ou do Banco Central, eram cargos de alta rotatividade, dedicados aos de alto coturno. Seus ocupantes fracassavam, mas logo retornavam aos bancos, onde ficaram milionários contando como o governo trabalhava.

Não havia lugar para economistas colloridos nesse esquema —que o digam Zélia, Antonio Kandir ou Ibrahim Eris. Foi aí que Cunha viu Deus, tornando-se radialista e pregador evangélico. Depois de PC, seu mestre foi Anthony Garotinho, também ele um carola a quem a república pseudolaica franqueou microfones de rádio.

Não se pode acusar Eduardo Cunha de, em duas décadas de carreira, ter sido iluminista. Como apóstolo da Assembleia de Deus, a maior denominação evangélica, com 65 milhões de crentes, só tratou de costumes. Seu catecismo foi obscurantista: ataques aos gays, à união dos do mesmo sexo, ao afrouxamento da lei sobre drogas.

Na política substantiva —porque é de pão que vive o homem, e não da palavra de Deus— Cunha foi a favor da iníqua desigualdade entre os brasileiros, da submissão do país ao parasitismo financeiro, do direito de herança total, dos impostos regressivos. Não precisava nem propalar isso porque o velho racionalismo burguês é hoje anátema.

Ninguém lhe deu combate. A Igreja Católica se calou por concordar com a sua pauta moralista. Sob João 23, os católicos agiram no desmonte da ditadura e na luta por justiça. Com João Paulo 2º e Bento 16, renderam-se à reação evangélica. Não só eles. Parlamentos, escolas, empresas, mídia —a capitulação foi geral.

Em nenhum lugar ela foi tão viciosa quanto na política. Cunha foi paparicado por todos os partidos, liderou a maior bancada da Câmara e a presidiu. Sem ele, o impeachment não prosperaria.

Agora, para que a derrubada de Dilma aparente ter sido justa, e para que a corriola que a abateu se diga implacável com os corruptos, o Brasil é instado a crer que a cassação de Cunha é histórica. Será festejar, no entanto, um sétimo lugar olímpico.

Vejam-se as eleições para prefeito. Em São Paulo e no Rio, vieram da máquina evangélica os candidatos à frente nas pesquisas. Russomanno e Crivella são uns ases, comemoraria PC. A podridão política que gerou Cunha está viva e voa alto.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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