7:27Pensando bem…

Rogério Distéfano

SICOFANTA. Não é palavra de uso comum, trivial, entre nós brasileiros. Mas em absoluto está ausente no dicionário, ao contrário, tem residência fixa nos vocábulos da letra ‘s’. Os alunos de escola pública do tempo pré Reforma Passarinho cruzavam com ela nas antologias que éramos obrigados a ler ou nos romances que, seduzidos pelas antologias, passávamos a ler. Os sicofantas pululam nos romances portugueses e brasileiros, Eça e Machado têm lá seus conselheiros imortalizados na categoria.

ANTES QUE me esvaia em desvios e deixe o leitor à mercê do Google, informo: sicofanta é o manjado puxassaco – ou puxa-saco, para os saudosistas do hífen. O capachildo, capacho, lambe-botas, baba-ovo e todas as variações conhecidas. O brasileiro não avança no estudo da espécie porque convive com ela em casa, no trabalho, no clube, na rua. São tantos, tão presentes, que ficamos no termo comum, o puxassaco. Meu pai adorava falar de capachildos. Deixou de adorar quando lhe disse que em certo momento agia como um deles.

O SICOFANTA, ou sycophant, na língua inglesa, é a palavra da moda na política dos EUA. Tem a mesma origem grega e o mesmo significado que o português. O uso se intensifica nos EUA graças ao presidente Trump, um narcisista que bordeja o limite da psicopatologia. Trump não aceita críticas, recusa conviver com a contrariedade inerente ao sistema democrático, agride a todo tempo e hora os adversários pelo Twitter. E como legítimo narcisista, deleita-se com os que o obedecem e se prestam a defender seus absurdos.

OS DEFENSORES de Trump alojados no governo receberam de imediato o apodo: sicofantas. Ignoram o senso comum, a realidade, até o interesse nacional para se entregar à defesa impossível de um presidente atrabiliário. Há uma semana dois deles, o chefe da Casa Civil e o diretor de comunicações, se estranharam. Coisa de baixíssimo nível da parte de Anthony Scaramucci, das comunicações, que chamou o colega, Reince Pribus, de paranóico, além de fazer troça com o nome deste: Reince Penis, ou Reince Caralho, a mais amena.

EM ENTREVISTA ao The Washington Post, Trump foi questionado sobre a briga dentro de sua cozinha, de dois colaboradores próximos na Casa Branca. Respondeu sem usar a palavra sicofanta, pois estudos já mostraram a limitação do vocabulário do presidente. Sua resposta, no entanto, revela conhecimento da espécie: “Não é nada, apenas brigam para ver quem me ama mais”. Ele, ainda que conheça, não usaria a palavra, mas mostra saber seu significado. No entanto, mostrou plenamente seu narcisismo.

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