9:04PARA NUNCA ESQUECER RODRIGO JOSÉ E DESAPAREÇA

por Thales Meneses

Rodrigo José abre espaço na internet recriando canções dos ídolos do brega

No videoclipe, a música demora a começar. Por quase dois minutos, imagens de um grandalhão com jeito de Elvis sofrendo com a mulher dominadora. Um dia, enquanto ele passa roupa, ela o abandona. Entra a música, o cara fica feliz, veste uma roupa cafona, pega sua bicicleta esquisita e sai para beber e jogar bocha com os amigos.

A música é “Desapareça”, canção passional que poderia ter sido composta e gravada nos anos 1970, num momento inspirado de Waldick Soriano ou Odair José.

Mas o autor é o grandalhão Rodrigo José –1,98 m, sem contar o salto das botas–, um ídolo popular em estado bruto que surgiu em Americana, no interior de São Paulo.rigo José

Em outros clipes, ele canta músicas autorais, como “Rosana”, mais um hit instantâneo, e regravações de clássicos da chamada música brega. Rodrigo resgata cantores como Nelson Ned, Ovelha, Evaldo Braga.

“Ainda garoto, gostava de outros tipos de música, mas um dia meu pai abriu o porão e eu descobri uma vitrola e a coleção de discos da minha mãe”, conta ele à Folha.

“Passei quase uma semana inteira ouvindo, só parava para ir à escola e para dormir. Ninguém me falou que aquilo era cafona, lembro daquelas músicas como bonitas, depois fui descobrir as pessoas que rotulavam aquilo de uma maneira pejorativa. Eu simplesmente gostei.”

CIDADE DO ROCK

O cantor de 41 anos nasceu e sempre viveu numa cidade de imigrantes americanos e tradição de bares de rock e blues. Deu entrevista no bairro Vila Jones, área que pertenceu à família de Rita Lee Jones –”Contam que ela passava férias aqui”, diz.

Ele montou várias bandas. Ao mesmo tempo, formou-se engenheiro civil e abriu escritório com um amigo. Mas dois acontecimentos o empurraram para a depressão: a separação após um longo relacionamento, que o afastou da filha, e a morte do pai.

“Mergulhei numa crise existencial grave, parei de trabalhar. Aí peguei fotos do meu pai, meus tios, e comecei a valorizar a época da minha infância. Via nas fotos as roupas que meu pai usava, aquelas fotos de casamento com os caras vestindo terno xadrez. Gente simples e pura, muito feliz”, conta Rodrigo, quase chorando. “Sou manteiga derretida.”

Ele diz ter percebido ali que estava indo atrás do que os outros queriam, até na música, insistindo com o rock. “Então resgatei os discos da minha mãe e comecei a compor. Uma loucura. As pessoas me perguntavam por que eu não ia trabalhar, diziam que poderia ser feliz como engenheiro, mas passava os dias trancado com o violão.”

ELVIS E MOTOWN

Procurou um amigo baterista, apresentou o projeto e foi chamando amigos músicos. “Sempre fui apaixonado pelo Elvis Presley e pelos artistas da Motown, juntei um pouco disso com a melodia e a letra em português. Decidi fazer metade de músicas minhas e metade de releituras, uma homenagem a esses caras que tiveram tanta importância na minha vida.”

A proposta deu certo, porque as canções próprias são muito boas e as regravações têm aprovação geral. Sua versão para “Fuscão Preto”, sucesso de Almir Rogério em 1982, é sofisticada e mostra uma força melódica que a gravação original escondia.

Outro acerto é a recriação de “Te Amo, que Mais Posso Dizer?”, música de Ovelha que vendeu mais de 5 milhões de discos e ficou lembrada pelo refrão “Uou, uou, iei, iei, sem você não viverei”.

O próprio Ovelha, ainda na ativa, gostou e acaba de gravar um clipe com Rodrigo.

As músicas estão no Facebook, no YouTube e nas plataformas digitais de música. A procura crescente por seus vídeos e shows vai obrigá-lo a lançar CD físico em breve.

Sem recursos, trabalha nas gravações e nos clipes no que chama de “tática de guerrilha”. “No interior tem essa coisa de resolver tudo com os amigos, você arruma alguém que faça aquilo de que você está precisando.” Montou em casa um estúdio, revestindo sozinho seu porão com espuma para isolamento acústico.

PROFESSOR PARDAL

Aí aparece o lado “professor Pardal” do artista. Nos três últimos anos, enquanto formatava esse projeto musical, reformou a casa onde mora. A estranha bicicleta motorizada que pedala no clipe de “Desapareça” foi ele mesmo que desenhou. Um amigo com oficina cortou as peças para que ela fosse montada.

Rodrigo também cuida sozinho de seu visual, de camisas espalhafatosas e calças boca de sino. “Americana é a terra do tecido. Eu vou a algumas lojas, escolho os panos e tenho uma senhorinha que faz as roupas para mim. Eu mesmo desenho.”

É o seu visual no dia a dia. “Só não estou com essas roupas uma vez ou outra, quando a minha esposa não me deixa. Às vezes vamos para uma festa e ela pede para que eu vá ‘normal’. Mas este é o meu normal.”

Andar com Rodrigo José por sua cidade é como caminhar ao lado de um herói. Todos querem falar com ele.

“É impossível me esconder. Pessoas postam fotos minhas passando de bicicleta, estou virando lenda. Não sou cafona, sou estiloso.”

*Publicado na Folha de S.Paulo

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