5:11PARA JAMAIS ESQUECER ANJOS DO INFERNO E BRASIL PANDEIRO

por Ricardo Cravo Albin, no Dicionário da Música Popular Brasileira

Foi considerado por boa parte da crítica um dos conjuntos vocais que mais lançaram músicas de qualidade, posteriormente rotuladas como clássicos da MPB. O grupo foi criado em 1934 pelo cantor e compositor Oto Borges, irmão do compositor Paulo Borges. Em sua primeira composição, além de Oto Borges nos vocais, o conjunto contava com Antônio Barbosa, no pandeiro; Moacir Bittencourt, no violão; Felipe Brasil, no violão; José Barbosa, violão-tenor e Milton Campos, no piston-nasal, sendo este o primeiro músico a dedicar-se no Brasil a essa especialidade. O nome adotado pelo grupo, foi alusão a uma orquestra liderada por Pixinguinha, Os Diabos do Céu, muito famosa na época. A idéia da inversão agradou a todos. Em 1936, o grupo passou por reformulações, com a saída de Oto Borges, que resolveu se dedicar a sua carreira de funcionário do Banco do Brasil. Ele foi substituído na direção do grupo pelo cantor Léo Vilar que, após passar uma temporada atuando de forma destacada na radiofonia baiana, retornou ao Rio de Janeiro. A estréia profissional do grupo ocorreu na Rádio Cruzeiro do Sul. Pouco depois, foram contratados pela gravadora Columbia e em fevereiro de 1937 o grupo lançou o primeiro disco com a marcha “Morena complicada”, de Kid Pepe e o samba “Amei demais”, de Kid Pepe e Siqueira Filho. No mesmo mês, gravou um segundo disco com o samba “Maria foi à fonte”, de Kid Pepe, e o samba-batucada “O malandro entristeceu”, de Ernâni Dantas e Martinez Grau. Por essa época, apresentou-se também na Rádio Cajuti, e passou a atuar no Cassino Icaraí, na cidade de Niterói, RJ. 


Em 1938, o grupo passou por outras modificações com as saídas do pandeirista Antônio Barbosa, substituído por Alberto Paz, do violão-tenor José Barbosa, substituído por Aluísio Ferreira e do pistão-nasal Milton Campos, que cedeu o lugar a Harry Vasco de Almeida. Em seguida, o grupo foi contratado pela Rádio Tupi, onde permaneceu por cerca de oito anos. Em 1939, gravou a marcha “Tim-tim por tim-tim”, de Almanir Grego, e o samba “Dura lex sed lex”, de Alberto Paz e Domício Augusto. No ano seguinte, lançou seu primeiro grande sucesso, o samba-canção “Bahia, oi!…Bahia”, de Vicente Paiva e Augusto Mesquita, que lhes valeu um contrato de exclusividade com a Columbia. Também em 1940, gravou a rumba “Barraco abandonado”, de Afonso Scola e Hermínio Viana; o jongo “Me ensina a sambar”, de Antônio Almeida; os sambas “Baiana boa”, de Milton Bittencourt; “Quem dirá?”, de Roberto Martins e Pandiá Pires e “Helena!…Helena!…”, de Antônio Almeida e Costantino Silva, que fez sucesso, e a marcha “Cow-boy do amor”, de Wilson Batista e Roberto Martins.

Para o carnaval de 1941, lançaram as marchas “Quebra tudo”, de João de Barro e Alberto Ribeiro, e “Três Marias”, de Cristóvão de Alencar e Frazão. No mesmo ano, obtiveram grande sucesso com o samba “Brasil pandeiro”, de Assis Valente, numa interpretação que marcou época. Ainda no mesmo ano, gravaram os sambas “É ela”, de Roberto Martins, e “Ela mandou me avisar”, de Mário Lago e Rubens Soares, além de fazer novo sucesso com uma composição de Assis Valente, o samba “Já que está deixa ficar”, que acabaria sendo o último que o grupo gravaria de Assis Valente, devido a um desentendimento entre o compositor e Léo Vilar. Também em 1941, o grupo gravou aquele que seria seu maior sucesso, o samba “Você já foi à Bahia?”, de Dorival Caymmi.

Para o carnaval de 1942, gravou a marcha “Nós os carecas”, de Roberto Martins e Arlindo Marques Jr., que alcançou grande sucesso. No mesmo ano, lograram outro sucesso permanete com a batucada “Nega do cabelo duro”, de Rubens Soares e David Nasser. Gravaram ainda a marcha “Ai! Ai! América”, de Roberto Roberti e Arlindo Marques Jr, e o samba “Mulato patriota”, de David Nasser e J. Batista. Também nesse ano, o grupo sofreu nova modificação com a substituição de três componentes: Hélio Verri no lugar de Alberto Paz, Roberto Medeiros no de Moacir Bittencourt e Walther Pinheiro substituindo Felipe Brasil. Por um breve período nesse ano, Renato Batista, irmão de Marília Batista, substituiu Walther Pinheiro, tendo participado da gravação dos sambas “Vatapá” e “Rosa morena”, ambos de Dorival Caymmi. Com a volta de Walther Pinheiro o grupo atuou um breve tempo como um hepteto.

Em 1943, o grupo gravou duas composições de Ary Barroso: o samba “Cinco horas da manhã” e a marcha “Cem por cento brasileira”. Ainda nesse ano, gravaram a rumba “Praia mulher”, de Georges Moran e J. G. de Araújo Jorge, e o samba-swing “Pesadelo”, composição de Janet de Almeida em parceria com o líder do grupo, Léo Vilar, além do samba “Eu não sabia”, de Ataulfo Alves e Jorge de Castro. Nesse ano, com a saída da Columbia do Brasil, passaram a gravar pela Continental, empresa criada por Byington e que herdou as matrizes dos discos gravados na Columbia. Por isso, nesse ano, foram relançados todos os discos do grupo gravados até então pela Columbia. A primeira gravação no novo selo teve os sambas “Um carinho é bom”, de Antônio Almeida e Ciro de Souza e “Samba”, de Benedito Lacerda e Darci de Oliveira. 

Em 1944, o conjunto gravou os sambas “Acontece que eu sou baiano” e “Vestido de bolero”, de Dorival Caymmi; o samba “É tudo meu”, de Nássara e Wilson Batista; a marcha “De papo cheio”, de Nássara e Roberto Martins; a marcha “Antonico ficou rico”, de Antônio Almeida e Roberto Roberti; o samba “Agora aguenta a mulher”, de Antônio Almeida, e os sambas “Seu Onofre!”, de João de Barro e Alberto Ribeiro, e “Tempo de solteiro”, de Arlindo Marques Jr e Marino Pinto. Ainda nesse ano, atuaram no filme “Abacaxi azul”, de J. Rui. No final do mesmo ano, o grupo foi contratado pela Victor e no primeiro disco na nova gravadora registrou os sambas “Na Glória”, de Mário Morais e Frazão, e “Quando eu gostava dela”, de Marino Pinto e Arlindo Marques Jr. Em seguida, gravou a batucada “Que será de mim”, de Chuca Chuca, Oscar Belandi e Gumercindo Silva, e a marcha “Micróbio de feiura (Oh! Feio)”, de Albertino Miranda, Arlindo Matilde e Nelson Trigueiro.

Para o carnaval de 1945, o grupo lançou as marchas “Carlota”, de Cícero Nunes e Ubirajara Nesdan, e “Alô querida”, de Roberto Martins e Mário Rossi. Ainda em 1945, gravaram com sucesso o samba “Bolinha de papel”, de Geraldo Pereira. A introdução foi feita pelo pistom nasal de Harry Vasco e, segundo Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, era “desarticulada”. Regravaram ainda a valsa “Velho realejo”, de Sadi Cabral e Custódio Mesquita, além de lançar os sambas “Que gostinho bom”, de Marino Pinto e Mário Rossi e “Isto é que é mau”, de Valdemar Ressurreição. Ainda no mesmo ano, gravaram com vistas ao carnaval do ano seguinte a marcha “Cordão dos puxa-saco”, de Roberto Martins e Frazão, um dos grandes êxitos do grupo e sucesso naquele carnaval. No início de 1946, o grupo lançou as marchas “Eu! Hein Rosa?”, de Marino Pinto e Pedro Caetano e “O que é que eu vou fazer”, de Haroldo Lobo e Frazão, e os sambas “Cuidado com o andor”, de Marino Pinto e Mário Lago, e “Vai que depois eu vou”, de Geraldo Pereira. Ainda no mesmo ano, gravou de Janet de Almeida o samba “Eu samba mesmo”, e de Pixinguinha e Gastão Viana o lundu “Benguelê”. Também nesse ano, saiu o pandeirista Hélio Verri, substituído por Russinho (José Ferreira Soares). Fizeram excursão pela Argentina com a nova formação, indo também ao México, onde ficaram por quatro anos trabalhando em clubes noturnos e shows. Lá, atuaram em 11 filmes, sendo que em oito deles trabalharam com Ninón Sevilla, grande estrela mexicana dos anos 1940 na Pelmex. Dentre esses filmes estavam “Pecadora”, “Perdida”, “Senhora tentação” e “Aventura”.

Em 1947, o grupo gravou com sucesso o samba “Boogie woogie na favela”, de Denis Brean, e o frevo-canção “Dora”, de Dorival Caymmi. Além dessas músicas, regravou no mesmo ano o choro “Tico-tico no fubá”, de Zequinha de Abreu, e os sambas “Dezessete e setecentos”, de Luiz Gonzaga e Miguel Lima, e “Aquarela do Brasil” e “Na Baixa do Sapateiro”, de Ary Barroso. Nesse ano, estrearam no night club “EL Pateo”, na capital mexicana, considerado o maior da América Latina.

Em 1948, alguns membros do grupo foram aos EUA para substituir integrantes do Bando da Lua. Nesse período, Leo Vilar convidou outros músicos para substituí-los, os ex-integrantes do grupo Os Namorados, Nanai (Arnaldo Humberto de Medeiros), no violão, Chicão (Francisco Guimarães Coimbra), no violão tenor e no tantã, e Miltinho, como cantor e pandeirista. Com essa formação apresentaram-se em Los Angeles, ao lado de Carmen Miranda. Durante dois anos, no México, mantiveram no ar um programa de rádio chamado “Coisas e aspectos do Brasil”. 

Em 1949, voltaram a gravar registrando os sambas “Nega”, de Valdemar Gomes e Afonso Teixeira; “Treze de ouro”, de Herivelto Martins e Marino Pinto; “Falaram tanto na Bahia”, de Arlindo Marques Jr e Roberto Roberti, e “Telhado de vidro”, de Marino Pinto e Mário Rossi. Em 1950, lançaram quatro sambas que haviam sido gravados quase um ano antes, “Filomena, cadê o meu?”, de Wilson Batista e Antônio Almeida; “Passa moreninha”, de Roberto Martins e Mário Lago; “Lá vem a baiana”, de Dorival Caymmi, e “Que mulher infernal”, de Mário Lago e José Batista. Em 1951, depois de excursionarem pela Argentina e Chile, voltaram ao Brasil. Logo que chegaram, foram contratados pela Rádio Jornal do Comércio, de Recife, PE. Em seguida, voltaram a atuar no eixo Rio-São Paulo, apresentando-se nas Rádios Tupi, Excelsior e Nacional e em temporadas em casas noturnas e boates como Monte Carlo e Oásis. Nesse ano, gravaram o baião “Chegando mais”, de Luiz Bandeira e Távora; os sambas “Amar sem ser amado”, de Léo Vilar e Nanai; “Amaralina”, de Oldemar Magalhães e Alberto Costa, e “Adeus América”, de Haroldo Barbosa e Geraldo Jacques, além dos boleros “Perdida”, de Chucho Navarro e “Contigo”, de Cláudio Estrada, que mostravam a influência do tempo vivido em terras mexicanas. 

Em 1952, gravaram os sambas “Retorne ao seu lar”, de Heitor Carrilho e Sílvio Donato, e “Ogun é São Jorge”, de Roberto Martins e Ari Monteiro. Em junho desse mesmo ano, saiu um último disco do grupo pela RCA Victor, embora gravado em abril do ano anterior, com a marcha “Meu balão perdeu o gás”, de Marino Pinto e Mário Rossi, e a rancheira “Tu, solo tu”, de Valdés Leal. Ainda em 1952, o grupo foi contratado pela gravadora Copacabana e lançou o samba “Vem cá, xodó”, de Hianto de Almeida e Ari Monteiro, e o bolero “Vem logo”, de Walderez Dip.

Em 1953, gravaram a batucada “Mais um traçado”, de Hianto de Almeida e Jurandy Prates; as marchas “Seca pimenteira”, de Romeu Gentil e Paquito, “Tá caro tudo”, de Brasinha e Castanheira e “Tá louco”, de Paquito e Romeu Gentil; o samba-canção “O silêncio venceu”, de Bidu Reis, e o bolero “Escuchame”, de Castanheira. Nesse ano, com razoável sucesso, fizeram temporada na Rádio Nacional. O grupo começou a enfrentar problemas devido ao aumento do preço das passagens aéreas, o que inviabilizou as apresentações ao vivo, maior fonte de renda do grupo, fato que contribuiu decisivamente para a dissolução do conjunto.

Em 1954, lançaram discos com os sambas “Vagalume”, de Arnô Canegal e Barão; “Viva a Pátria e chova arroz”, de Marino Pinto e Paulo Soledade, e “Nova Iguaçu”, de Castanheira; a marcha “Marcha da babá”, de Arnô Canegal e Valtami Goulart; o bolero “Contigo pecar” e a “Valsa da primavera, as duas últimas, de Mário de Paoli e Nelson Correia. Voltaram a gravar dois anos depois, lançando o coco “Oito da Conceição”, de Gordurinha e Alfredo Godinho, e o samba-canção “Meu segredo”, de Léo Vilar, Vital Pereira e J. Haidar. Em 1957, gravaram o samba “Na Barra Funda” e a marcha “A cor da morena”, de Charuto e Felipe; o samba-rock “Julieta”, de Maurício de Oliveira e Moacir Braga, e o samba “Farrapo humano”, de João Grimaldi e Léo Vilar. Nesse ano, lançaram aquele que seria o último disco do grupo, com o samba “Rolando, rolando…”, de Fernando Lobo e a “Marcha do lenhador”, de Roberto Martins e Afonso Teixeira. Nessa época, o grupo se dissolveu.

Em 1959, o grupo retornou especialmente para se apresentar na revista “De Cabral a JK”, de Max Nunes, J. Maia e José Mauro, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. Na ocasião, atuou com uma nova formação que contava com Leo Vilar no vocal, Gaúcho, no violão, Miguel Ângelo, no pandeiro, e Paulo César, no tantã. Em 1967, o grupo resgatou os antigos músicos de sua formação (Leo Vilar, Walter Pinheiro, Aluísio Ferreira, Roberto Medeiros, Harry Vasco de Almeida e Russinho), para apresentações no Arena Clube de Arte, no Rio de Janeiro. Ao final da vida, Leo Vilar, já muito doente, foi socorrido pelo diretor do MIS, Ricardo Cravo Albin, que promoveu um show beneficente para ajudá-lo. Em 1991, no “Samba da minha terra”, do selo Revivendo, no qual aparecem ainda os conjuntos Bando da Lua, Grupo “X” e – 4 Ases e 1 Coringa, apareceram interpretando as músicas “Vatapá”; “Bolinha de papel”; “Rosa morena”; “Bahia, OI!… Bahia” e “Brasil pandeiro”.

O grupo atuou com grande sucesso na década de 1940 e ficou marcado pela utilização do recurso, por parte de um dos integrantes, de imitar um pistom com a boca, conferindo uma sonoridade original. Para o pesquisador Ary Vasconcelos, o sucesso do grupo estava “não certamente na vocalização, mas em ritmo, um ritmo realmente infernal, e naquela coisa imponderável chamada bossa – que estava na voz de Leo, no pistão-nasal (que às vezes se transmutava em guitarra havaiana…) de Harry, no bom-humor coletivo, na alta qualidade dos instrumentistas”. Ao longo da carreira, gravaram um total de 86 discos pelas gravadoras Columbia, Continental, RCA Victor e Copacabana.

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