19:48Para Gylmar, De Sordi e Djalma Santos

As vozes de Edson Leite e Pedro Luiz nunca saíram da alma de criança. E os heróis que atravessavam o Oceano Atlântico nas ondas do rádio ficaram para sempre no coração de alguém com quatro anos. Meu cronômetro não tem ponteiros para eles. Marcam, sim, dores de uma despedida como essa de hoje, dupla, do goleiro e do lateral titular da seleção brasileira de 1958, este que foi substituído por outro monstro sagrado, que foi embora recentemente e honrou todos os atleticanos ao vestir por amor a camisa rubro-negra na despedida dos campos, aos 42 anos. Gylmar e De Sordi foram embora hoje. Djalma Santos há poucos dias. E no céu, que existe, a seleção se formando de novo. Foram se juntar a dois deuses da bola, Garrincha e Didi. Não vi nenhum deles jogar ao vivo, pois o destino e o tempo que marcam o cronômetro da vida me levaram aos estádios de forma profissional muitos anos depois. Mas se vi centenas, talvez milhares de jogadores em décadas de trabalho, e jamais esqueci de reverenciar estes, os que vinham e desenhavam jogadas na minha mente naquela rádio-vitrola onde o olho-mágico da sintonia compunha o cenário da magia descrita pelas vozes de dois dos maiores narradores esportivos da história. Por isso tenho muita saudade do que nunca vi. Mas os que tiveram esse privilégio, estes narraram, escreveram, contaram – e mesmo os que não enxergavam direito, como o maior dos cronistas, mestre Nelson Rodrigues, transformaram em verdade o que era apenas uma emoção da transmissão. Conheci De Sordi em Bandeirantes, no União, ele que foi um injustiçado por não jogar a final daquela Copa na Suécia. Estava machucado, jamais amarelou, ele que foi titular nos cinco jogos anteriores. Os outros, infelizmente, apenas idolatrei, pelo talento, pela conduta fora dos gramados. Jamais demonstraram um pingo de soberba, como milhares de pernas de paus de hoje que ganham alguns trocados e se acham reis. Gylmar, De Sordi e Djalma Santos eram simples porque tinham consciência  sobre o tesouro do talento que Deus lhes deu. Eles nos passaram isso, além da alegria imensa das conquistas e da arte de se tratar a bola como ela merece. Cuidaram disso. Ficarão para sempre na narração que a história faz de quem merece.

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