6:43Os comissionados

por Célio Heitor Guimarães

“O excesso de cargos de confiança nos governos federal, estadual e municipal gera corrupção”. A afirmação não é minha, ainda que, como sabem todos os treze leitores destas linhas, eu tenha ideia fixa sobre o tema. A assertiva partiu de alguém muito mais graduado, muito mais autorizado e muito mais capaz de gerar repercussão. A frase foi dita pelo eminente juiz federal Sérgio Moro, um dos responsáveis pela atual faxina nacional denominada Operação Lava-Jato. Moro falava em uma palestra realizada na cidade de Campo Mourão, neste Estado – conforme registrou aqui neste espaço o nosso Zé Beto.

Segundo Moro, os cargos em comissão, como são chamados os de confiança, são usados, no mais das vezes, como “barganha política”. E cita como exemplo o ocorrido, anos a fio, na Petrobras, realçando, com conhecimento de causa, que os cc constituem “uma oportunidade de corrupção, uma fonte de corrupção”.

Digo isto há anos. E por isso já gerei incompreensões e fiz, sem querer, desafetos conhecidos e desconhecidos. Mas é, sempre foi e sempre será o meu entendimento. Um entendimento de quem esteve na administração pública por 35 anos, conhece-lhe a epiderme e os intestinos e tem idade e autoridade para dizê-lo.

Essa, porém, não é a opinião do senador, ex-governador e provavelmente outra vez candidato ao governo do Estado Roberto Requião. “Sem os cargos comissionados, o Estado seria uma corporação de funcionários públicos contratados no passado, sabe-se lá com que intenção e com que favorecimentos” – proclamou o monarca do Bigorrilho.

Quando disse essa sandice, Requião surpreendeu. Houve quem não acreditasse que ele, tido como homem inteligente, culto e experiente, fosse capaz de dizer tamanha asneira. Depois, achou-se que era apenas mais uma encenação de quem gostava de posar de mau, emocionalmente irado, para amedrontar a plateia, fiel aos ensinamentos de Nicolau Maquiavel, seu autor de cabeceira. Hoje, depois de RR haver se revelado por inteiro, não surpreende mais. Aliás, é coisa própria dele, quase sempre atropelado pelo temperamento e pela língua.

Segundo o então “Zorro das araucárias”, “os cargos comissionados são absolutamente necessários. Quando um partido assume um governo para implantar uma proposta definida pelo povo, senão temos a ditadura das corporações. Os concursados podem ser eventualmente comissionados também, mas não pode ter exclusividade, senão o governo eleito não assume o controle do Estado”.

Na época, valendo-me de certa dose de ironia, emendei: “Pois é, governador. Pena que não se possa nomear também os diretores de jornais e substituir, no início do governo, toda a juizarada e a turma do Ministério Público. Essa gente, às vezes, também atrapalha a ação do governante…

Estávamos em 2007 e Requião achava que governava o Paraná apenas com dois rafaeis, dois delazaris, um pessutão, dois manos velhos, meio doático e vários romanellis.

De minha parte, reitero: os problemas da administração pública só serão resolvidos no dia em que se acabar (ou reduzir a um mínimo indispensável) os cargos em comissão, aqueles “de confiança”, para cujo preenchimento basta ser amigo do rei ou amigo de um amigo do rei, isto é, não se exige concurso público nem competência pessoal ou profissional. Aliás, o contemplado sequer precisa comparecer ao serviço. O contracheque vai direto para a sua conta corrente.

Até lá, ficaremos na atual agonia de ter que acomodar sob as asas do Estado e a proteção do governante de plantão – quando não bandidos e lacaios de variados naipes –, os familiares, os compadres e os correligionários derrotados no último pleito, sem emprego, sem rumo e muito menos apreço pela administração pública. E com eles, como muito bem destacou o juiz Sérgio Moro, facilita-se, fomenta-se e dissemina-se a corrupção.

Grande magistrado! Além de competente, eficiente e corajoso, consciente. A administração pública se engrandece com a presença dele e nós, brasileiros, nos orgulhamos de tê-lo como servidor público de carreira.

4 ideias sobre “Os comissionados

  1. Parreiras Rodrigues

    Moléstia ( com ele mesmo) às favas, a cada eleição municipal sou convidado a me candidatar a prefeito da minha Santa Isabel do Ivai. Tudo bem, concordo, por apenas meia dúzia. Declino. Funciona assim: O cara tem que se cercar duma coligação. Eleito, tem que atender os pedidos de acomodação de cupinchas dos dirigentes dos partidos coligados, quando não eles mesmos. Penso nisso, logo desisto. Simples assim.

  2. João Carlos Vítola

    Desculpe utilizar espço para comentários mas, não sabia onde achar seu e-mail.

    Boa tarde.
    Sigo suas ponderações no espaço do Zé Beto e compartilho vários pontos de vista seus que são também os meus.
    Tentarei ser breve. Gostaria de suas ponderações sobre assunto que discorrerei em seguida.
    ( Quanto tempo levará para nosso País entender que não é possível mais conviver com legislativo pautando o executivo. O parlamentar eleito para as suas específicas funções constitucionais, pode ao sabor de reais interesses seus e do mandat´rio de então, ser ministro e no dia seguinte deixar de se-lo, soménte para preencher vaga votante quando do interesse do executico ou mais realisticamente do mandatário. Um ministério deveria ser coisa tão séria que o parlamentar que não sabe trocar uma lâmpada nã poderia ser ministro de minas e energia, ´so para exemplificar. Nossa economia vai aos tropeços pelos descaminhos políticos. A moeda de troca é o futuro não mais dos nossos filhos mas, dos nossos netos, bisnetos, tataranetos e quem sabe mais desta fila interminável de desacorçoados brasileiros.
    Não escuto, não vejo a mídia de um modo geral contrapondo-se nesta matéria. Confesso que por um momento acreditei que a tal reforma política iria dar passo importante neste sentido. o que vimos foi só e tão sómente só quem pagará a conta das mentiras propostas.
    Enfim, como sonhador que sou, esperava que parlamentar eleito ao ser convidado a ocupar ministério,secretaría de governo ou assemelhados do executivo, ao decidir aceitar este encargo, abdicasse totalmente de suas perrogativas parlamentares, bem como seu suplente. Ministério não é e nunca foi brinquedo para inéptos. Assim como ser parlamentar não é e não pode ser um joguinho de escárnios para com aqueles que todo dia ralam e posriormento são ralados por esta falácia de demoracia que vivemos. )
    Obviamente minha pretensão foi aqui colocada não no sentido de procurar um arauto destas colocações mas, por não ver manifestações de economistas, daqueles que possuem o dom do planejamento, daqueles que deveriam discutir seriamente nosso futuro pautado por questões essencialmente técnicas e não o estão fazendo, recorro a sua disposição mais que abalizada para eventualmente focar este assunto em suas tão certeiras colocações.
    Grande abraço.
    João Carlos de Souza Vítola
    jota5001@gmail.com

  3. Zé Ninguém

    Totalmente apoiado Célio, trabalhei durante a Ditadura Requiana e pude comprova na pele a ideia de Maria Louca acerca dos “Comissionados”, o cara adorava trocar competentes servidores de carreira por incompetentes que lhe batiam palmas. Se a sociedade quer o fim da corrupção e da roubalheira no Serviço Público e nas estatais é começando pelo fim dos Cargos Comissionados.

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