16:13Onze na cabeça

por Ruy Castro

Em conversa com uma amiga bem informada, fã de literatura, Carnaval e futebol, descobrimos que, embora assistisse pela TV aos jogos da seleção brasileira e do seu clube de coração, o Fluminense, ela não sabia escalar nenhum dos dois. Da seleção, lembrava-se de Neymar, claro, e de David Luiz, Daniel Alves, Hulk e olhe lá. E, do Fluminense, além de Fred, só lhe vinham à cabeça Diego Cavalieri, Gum e Magno Alves – talvez por já serem tão móveis e utensílios do tricolor quanto os vitrais das Laranjeiras.

“O Millôr [Fernandes] dizia que a Academia Brasileira de Letras se compunha de 39 membros e um morto rotativo”, ela explicou. “Com a seleção e com os nossos times, é parecido. Cada qual tem, digamos, um craque e dez japoneses rotativos. De seis em seis meses trocam quase todos, não dá para gravar”.

Em compensação, nem vacilou quando a desafiei a escalar os membros do STF (Supremo Tribunal Federal). De estalo, desfiou-os como se formassem um time: “Lewandowski; Celso de Mello, Teori, Fachin e Luiz Fux; Cármen Lúcia, Rosa Weber e Gilmar Mendes; Barroso, Toffoli e Marco Aurélio Mello”. E, como se falasse de futuras estrelas dos Jogos Olímpicos, citou também o juiz Sergio Moro, o procurador-geral Rodrigo Janot e os procuradores Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima.

Minha amiga não será a única a saber de cor os nomes desses juízes e a identificá-los em fotografias. Com exceção dos apresentadores do noticiário e dos atores da novela, eles devem ser atualmente os rostos mais conhecidos do país.

No Brasil de outros tempos, em que o governo estava sempre na iminência de meter a mão no nosso bolso, era importante saber o nome do ministro da Fazenda. Hoje, o povo torce por aqueles que — ele espera — o redimirão do que vê como anos de putrefação da vida nacional.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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